Fantástico,
maravilhoso! Não fosse a frustração por não
encontrar palavras que definam em toda a sua plenitude a beleza desta
obra-prima, eu me encontraria no mais absoluto estado de graça.
Os diretores Stanley Tucci e Campbell Scott presenteiam-nos com “A
Grande Noite”, onde a emoção e o paladar são
seduzidos em toda a sua exacerbação.
O enredo se exalta na busca de sonhos, na determinação
de princípios, ou no confronto destes com as metas traçadas,
ao mesmo tempo em que nos embala numa suavidade eufórica, ao
contemplar o debruçar da alma no preparo dos alimentos. É
a história de dois irmãos italianos, Primo (Tony Shalhoub)
e Secondo (Stanley Tucci), que montam um restaurante em Nova Jersey,
nos anos 50, procurando transmitir em cada nuance a verdadeira essência
da gastronomia italiana. Os clientes são escassos além
de estarem mais interessados em comer do que saborear, e as dividas
se avolumam. Enquanto Secondo representa o real, a razão, a luta
pela viabilidade da concretização de um sonho, embora
o seu lado de emotivo italiano, por vezes o faça transpirar no
calor da emoção, Primo representa o idealismo, a lealdade
às raízes, a preservação do sentimento impregnado
em cada tempero e traduzido no detalhe de cada gesto. A grande noite
representa para o primeiro um passo decisivo rumo ao sucesso, mas para
o segundo ela se revela como uma ameaça à integridade
do artista que expõe o paladar fazendo dos ingredientes sua matéria
prima e dando-lhes forma ao despertar todos os sentidos.
A trilha sonora é envolvente no resgate da melodia italiana,
e se encaixa perfeitamente em cada situação.
Os diálogos primam pela simplicidade de códigos e a complexidade
de emoções.
As imagens são belíssimas, ora frenéticas, ora
serenas, numa cadência que inebria o espírito, e o visual
dos pratos que compõem a grande noite é de dar água
na boca. A elaboração do “Tímpano”,
receita sigilosa passada através das gerações,
faz com que queiramos invadir a tela, e nos deixar invadir pela descoberta
de seu sabor, aroma e textura. Mas o momento mais delicadamente intenso,
é a preparação em tempo real de uma simples omelete,
para onde se converge todo o teor emocional do filme.
Após ter assistido duas vezes seguidas a este delicioso filme,
ainda envolvida pelo clima que transpira em cada cena onde o alimento
está presente, dirigi-me à cozinha, e com toda a alma
passeei pelo mágico mundo onde sabores, aromas, cores, consistências
se abraçam e exalam um prazer indescritível.
Um bom cozinheiro se identifica na qualidade de pratos simples, onde
o verdadeiro paladar não se permite mascarar.
Com certeza não tão simples quanto a omelete preparada
por Secondo, mas sem dúvida conduzida pela com a mesma paixão,
num prato fundo, bati 4 gemas, 1/3 de xícara de leite, 1 colher
(de café) de erva-doce, 1 colher (de sopa) de salsa picada e
1 colher (de sopa) de queijo tipo parmesão ralado. À parte,
bati 4 claras em neve, as quais anexei à outra mistura, envolvendo-as
delicadamente.
Em fogo baixo, numa frigideira anti-aderente, untada com um fio de azeite
de oliva, espalhei a mistura e esperei que esta cozinhasse até
se soltar da frigideira. Transferi-a para um prato raso, e virei-a na
frigideira, para cozinhar o outro lado.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)