Como
sempre fazia, Rogério chegou de surpresa. Aproximou-se de mim
silenciosamente, aproveitando a oportunidade de me encontrar absorta
no preparo da massa da torta, passou seus braços em torno da
minha cintura, e suspendeu-me a um palmo do chão. Virei o rosto
e abri o coração, deixando que a alma se exaltasse em
cânticos de contentamento, ao contemplar o sorriso docemente desafiador,
daquele que me trouxera nas mãos o pão da vida.
Rogério devolveu meus pés ao chão, recuou, criando
uma relativa distância entre nós, examinou-me, com um olhar
onde a ternura se exacerba, e expôs seu julgamento:
“Você precisa me dar a fórmula desse elixir que te
deixa cada vez mais jovem! E essa purpurina que te cobre com um brilho
mágico, onde você a encontra?”
“Talvez no mesmo lugar onde você busca o dom das palavras
que regojizam a alma e alimentam o ego com um paladar indescritível...”
“Eu apenas me limito a transcrever a verdade com a mais absoluta
fidelidade. Devo até dizer que o meu vocabulário não
supre toda a necessidade de adjetivos.”
“Você é o galanteador mais convincente que existe.”
“E você é o mais exuberante objeto de elogios.”
Entre nós era sempre assim. A reciprocidade de sentimentos repletos
de admiração, envolta num jogo de palavras que se tornam
insuficientes para a intensidade do espírito, culminava com o
recurso gestual, onde um abraço se alargava.
Saudade aliviada, sentimentos expostos, carinhos trocados, corações
exaltados e depois acalmados... E a minha inspiração volta
a navegar ao sabor das ondas do próprio sabor.
Num recipiente, coloco 2 xícaras de farelos de bolacha maisena
batida no liquidificador, 1/3 de xícara de mel, 1/3 de xícara
de manteiga, 1 colher (de chá) de canela em pó e 1 colher
(de chá) de raspas de limão. Com as mãos amasso
tudo até que forme uma massa homogênea, forro o fundo e
as laterais de uma forma com fundo removível, apertando a massa
e alisando-a com os dedos. Levo ao forno médio (pré-aquecido)
por dez minutos.
Depois do milagre da multiplicação da esperança,
ocorrido no banco daquela praça na noite de 24 de dezembro 13
anos atrás, por uma dessas coincidências, ou não,
com que a vida nos presenteia, reencontrei Rogério, trouxe-o
comigo para o Lar, e com o passar dos anos fui observando e fazendo
parte, numa gratificação mútua de troca de ensinamentos,
do seu crescimento como pessoa e como cidadão. Convicto e empenhado
em sua meta de se tornar professor, galgara com louvor cada degrau que
o conduziu até à faculdade, onde cursava pedagogia.
Retiro a massa do forno e deixo esfriar antes de desmontar a forma.
Descasco 4 kiwis, corto em rodelas, e os disponho harmoniosamente sobre
a torta. Numa panela, derreto 3 colheres (de sopa) de manteiga. Desligo
o fogo, junto 1/3 de xícara de açúcar, 5 gemas
e 1 xícara de Karo e 1 ½ xícara de nozes picadas
grosso modo. Completo o recheio da torta com esta mistura.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
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