“Bia, estava pensando em te ligar!... Tenho andado meio corrida, mas nos poucos intervalos dessa correria, a minha preocupação com você manifesta-se ansiosamente. Quero saber como andam as coisas, apenas fico sem graça para abordar o assunto, já que pouco ou nada posso fazer.”
“As coisas vão indo... com muita tristeza e inconformismo... Mas é exatamente por querer mudar o rumo dos acontecimentos, que eu estou te ligando.”
“Qual é o meu papel nessa história?”
“Tony está voltando hoje de uma viajem. Por uma dessas generosas ironias do destino, assisti ontem a um filme, que entre várias citações gastronômicas, para meu bel prazer, faz uma análise profunda dos relacionamentos, mais precisamente do casamento.”
“Tudo a ver com você! Qual é o filme?”
“JANTAR ENTRE AMIGOS.”
“Já ouvi falar, mas ainda não tive tempo de assistir. Dizem que tem diálogos muito bons, e que é um ótimo laboratório para os psicólogos.”
“Sem dúvida! É baseado na peça escrita por Donald Marguiles, vencedora do Prêmio Pulitzer, e dirigido por Norman Jewison.”
“O mesmo diretor de Um Violinista No Telhado, Jesus Cristo Superstar, Agnes de Deus, A História De Um Soldado, Feitiço Da Lua...”
“Exatamente! Por um instante esqueci que você é uma cinéfila”
“Embora um tanto quanto desatualizada.”
Houve uma cúmplice risada. Naquele momento desviavam-se do objetivo do telefonema, e mergulhavam em um assunto, que fora tantas vezes alvo de conversas descontraídas e empolgadas.
“Os atores são...”
“Dennis Quaid, Andie MacDowell, Greg Kinnear e Toni Collette. Estão muito bem em seus papeis. Você deveria assistir, para depois discutirmos o tema, assim como fizemos com tantos outros. As receitas que fazem parte da história, são de dar água na boca. Deveríamos experimentá-las! Aliás, o meu telefonema tem a ver com isso.”
“Ah sim! Voltemos ao começo da nossa conversa!”
“O filme fez-me repensar toda a situação em que se encontra o meu casamento. Ou devo dizer, em que ele se desencontra?...”
“Vejo que você recuperou o bom humor, se consegue até fazer piada com algo que nos causou tanta surpresa e tristeza há quinze dias.”
“O bom humor é o melhor combustível para a criatividade, e esta com certeza, me ajudará a recuperar o que cheguei a pensar estar totalmente perdido.”
“É isso mesmo, minha amiga Carol! Você não é uma mulher que desiste sem esgotar todos os recursos, e se ainda existe amor, não vejo porquê não tentar!”
“Vou tentar devolver ao Toni aquilo que, sem perceber, fui arrancando dele durante todos estes anos.”
“O quê?”
“A sua auto-estima.”
“Você acha?”
“Reclamei enfaticamente do que me desagradava, e omiti cegamente todas as coisas boas que me fizeram permanecer ao seu lado. Negligenciei nossas conversas, nossos carinhos, deixando que o companheirismo e a paixão se desbotassem na acomodação do dia a dia.”
“Você tem razão! Precisamos estar alerta para que isso não aconteça. Todo o relacionamento tem que ser alimentado, senão enfraquece, e sem nos darmos conta, morre.”
“Então, pensei que seria uma ótima idéia voltarmos a nos reunir, como retomada dos velhos tempos, e mais uma vez, o destino colocou em minhas mãos o anúncio de uma peça que se baseia nesse mesmo texto do Marguiles, dirigida por Felipe Hirsch, com Renata Sorrah, Xuxa Lopes, Otávio Muller e Mário Schoemberger. Poderíamos assisti-la, e prolongar a noite com um jantar aqui em casa, cuja sobremesa foi inspirada pelo filme.”
“Como se já não bastasse a tentadora proposta de um retorno aos velhos tempos, o teatro e a sobremesa com certeza tornam o convite irrecusável. Parece-me que a peça está em cartaz no Teatro Folha.”
“Lá, no Shopping Pátio Higienópolis, no piso 2.”
“E a sobremesa, o que é?”
“Tentei criar alguma coisa, baseada nas referências que o filme me deu. Ou seja, que tem amêndoas, limão, e a farinha de trigo é substituída por polenta. Ficou irresistível!”
“Como você fez?”
“Primeiro fiz a massa. Em uma panela, coloquei 1 xícara de leite e 3 colheres (de sopa) de manteiga. Deixei ferver. Acrescentei uma colher (de sopa) de raspas de limão e uma xícara de fubá. Mexi até engrossar, retirei do fogo, e coloquei numa forma redonda, de fundo removível, untada e polvilhada. Polvilhei com raspas de amêndoa, e esperei que a massa se solidificasse.”
“Fubá? Deve ficar interessante!”
“Enquanto esperava a massa adquirir a consistência necessária, na batedeira, bati 4 ovos inteiros, 1 colher (de chá) de essência de amêndoa, 1 xícara de amêndoas moídas, meia xícara de açúcar e meia xícara de fubá. Distribui sobre a massa, polvilhei novamente com raspas de amêndoas, e levei ao forno pré-aquecido por cerca de20 minutos, até que o recheio ficasse consistente e dourado.”
“Hum... já estou com água na boca!...”
“Espero que o seu paladar seja prestigiado com o resultado do nosso reencontro!”
“Com certeza será! Vou ligar agora para o Gabriel, e colocá-lo a par do programa de hoje, mas desde já podem contar conosco!”
“Que bom! Estou ansiosa! Obrigada pelo apoio!”
“Obrigada pelo convite, e por continuar acreditando na nossa amizade!”
“Um beijo minha querida amiga. Deseje-me sucesso nesta batalha!”
“Um beijo, Bia. Tudo voltará a ser como antes, ou ainda melhor, se fôr possível.”

 

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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