Colocou Melissa no colo, acolheu a suas costas contra o peito, deixando que o coração abrisse as asas do carinho, como o vôo de uma gaivota em plena primavera. Envolveu em seus braços, aquele corpo frágil, de alma forte, que o fortalecera em tantos instantes. Embrenhou o nariz no suave aroma dos cachos negros, e perdeu-se na contemplação das formas arredondadas que delineavam aquelas mãozinhas de criança, enquanto seguravam com determinação o fino livro, de muitas cores, traços simples, e frases curtas, que ganhavam vida na cadência da voz de Melissa que, com o acréscimo de onomatopéias e algumas considerações pertinazes à visão infantil, termina a história, junta as páginas, vira o rosto com o olhar embriagado de uma agitada ternura, resgatada por um sonoro beijo, e escorrega apressadamente para o chão, enquanto lhe puxa o braço, numa súplica imperativa:
_ Vamos, faz aquele suco para mim!
Roberto toma-lhe a mão, que se aconchega entre a sua, retribui-lhe o beijo e o olhar, e em passadas largas, acompanha seus passos saltitantes até à cozinha.
Melissa sobe num banquinho, encosta a barriga na pia, e segue avidamente todos os gestos que seguem as orientações de quem já decorou a receita.
Roberto coloca no liquidificador duas rodelas de abacaxi (picadas), uma maçã picada, 3 colheres (de sopa) deleite condensado, meia xícara de água e algumas folhas de hortelã. Bate, até que a espuma se sobreponha ao liquido. Forra o fundo e as laterais de dois copos com fios de groselha, e despeja neles a consistente e refrescante bebida.
Sentados nos degraus que precedem a soleira da porta, olham quem passa, e vêm a vida passar, retendo dela e com ela toda a essência de um momento compartilhado na sua plenitude. Nas mãos, o copo, no rosto um espumante bigode desenhado, no coração de Melissa, o concreto se perde entre a abstrata sensação da tristeza que se tornará real, na alma de Roberto, a angústia da impotência, e a dor cortante da lâmina fria que determina o destino de duas pessoas. Um carro pára em frente, o motor se cala, o som do martelo grita a sentença, enquanto a porta se abre e a lei se codifica na imagem robusta da portadora do veredicto.
Abandonam os degraus, desocupam as mãos, limpam os bigodes, e seguram a emoção. Na pequena bolsa, algumas roupas, um livro fino, e muitas, muitas histórias de esperanças alimentadas mas não saciadas. Roberto segue com o olhar os passos presos de Melissa, compulsoriamente guiados pela mão da Assistente Social, e prende no peito um grito de revolta. Melissa era o único elo afetivo que lhe restava. Criado nas ruas ao sabor e dissabor das drogas, fizera da força de uma paixão a alavanca para submergir do submundo e dar vida à própria vida. Encantara-se com o nascimento da filha, e supria as necessidades das duas com todo o empenho, mas a armadilha da recaída o emaranhou por caminhos que o levaram a cumprir pena de seis anos, a qual viu reduzida à metade em virtude do bom comportamento. Disposto a recuperar o tempo perdido, é surpreendido por uma bala perdida, que apaga brutal e repentinamente a presença da sua paixão. Busca no amor pela filha os alicerces que o sustentarão e começa a escrever uma nova história. Mas a implacabilidade do passado o condena, derrubando com o açoite do vento todos os sonhos, e Melissa lhe é negada, para ser entregue a uma Instituição de Caridade.
Melissa vira o rosto com olhar aprisionado por uma dolorida ternura, transbordante de súplicas que a devastadora impotência não lhe permite acalentar. Roberto retribui a ternura e se junta ao silêncio, enquanto a dor lhe proclama toda a culpa.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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