De boca em boca, prefaciada com o pedido de: “Não conte a ninguém,mas...”, chegara aos ouvidos do Jeremias, a notícia de que a diretoria convocara uma reunião para o dia seguinte, na qual seria colocada em pauta a promoção do próprio.
Por isso e para isso, hoje, o tal “dia seguinte”, Jeremias acorda mais cedo de um sono interrompido pelo frenesi da expectativa. Demora-se mais para escolher a roupa, alonga o refrão que canta no chuveiro, capricha na barba em frente ao espelho, exagera na colônia barata, transferindo a essas mudanças sutis uma prévia comemoração do reconhecimento a vários anos de esforço, lealdade e competência. Talvez agora, com um aumento na folha de pagamento, possa tornar realidade, a faculdade com que o seu filho mais velho tanto sonha e, é imbuído pela exaltação dessa possibilidade que olha o rapaz, dormindo encolhido no sofá. O pão e o café não descem, tem um grito contido na garganta, e uma alegria transbordando o coração.
Jacira assiste a tudo, cúmplice e complacente. Conhece o marido, e por isso, em silêncio, compartilha a euforia contida. Acompanha-o até à porta, e observa-o caminhando com passos calçados de esperança. Volta para a cozinha, o dia merece um jantar especial, e resolve prepará-lo, antes de sair para trabalhar.
Corta dois peitos de frango em pequenas tiras. Refoga-os em um pouco de azeite com uma cebola e dois dentes de alho, picados. Ganhara de sua patroa alguns ingredientes que não se atrevia a comprar, e resolve usá-los. Acrescenta uma xícara de azeitonas verdes, sem caroço, cortadas ao meio, refoga por mais um minuto, e junta meia xícara de vinho branco seco. Espera que este ferva, para acrescentar três colheres (de sopa) de catchup, uma xícara de leite de coco e uma de leite fresco. Deixa cozinhar por quinze minutos. Em uma xícara, desfaz uma colher (de sopa) de amido de milho em um pouco de leite, despeja na panela, e mexe até que o caldo engrosse. Abaixa o fogo, e continua mexendo, enquanto acrescenta uma xícara de creme de leite. Termina de temperar com uma pitada desal.
Os minutos passam, e os ônibus não.Alguém no ponto lhe diz que os ônibus estão em greve. Lá é dia para se fazer greve! O jeito é optar pela lotação. Passa uma, duas, três. Todas lotadas. Jeremias transforma a inquietude da perspectiva em inquietude dos fatos.O tempo vai passando, e a angústia aumentando, pela insolubilidade das soluções possíveis.
Olha o relógio, e os ponteiros implacáveis denunciam que a reunião está prestes a começar. Quando o seu nome for citado, talvez o chamem, e ele nem estará presente. Que funcionário é esse que não comparece ao serviço sem uma justificativa ou aviso prévio? Talvez mudem de idéia, e escolham outro em seu lugar. Afrouxa o nó da gravata. Pergunta as horas, na esperança de se ter enganado, mas constata que o seu relógio, pelo qual pagou uma pechincha a um camelô, funciona perfeitamente. O que não funciona são os transportes públicos desta cidade, nem as lotações que deveriam servir como alternativa, clandestinas ou não.
Talvez tomando um táxi, consiga recuperar parte do tempo já perdido. Enfia as mãos nos bolsos, e os revira, na busca desesperada de suprimentos que lhe permitam fazer esta opção, mas o resultado são apenas alguns trocados, perdidos entre passes e vales refeição. Acha um cartão de telefone, e percorre a calçada com olhar enfraquecido pelas derrotas, até que avista um orelhão. Talvez ligando para justificar o atraso, alivie qualquer avaliação negativa que o mesmo possa ter lhe causado. Orelhão quebrado, depredado, negligenciado, e a gravata, antes afrouxada, se acomoda dobrada, no bolso do paletó, enquanto o suor lhe escorre pela testa. É outono, o céu cinzento encobre qualquer raio de sol, e acinzenta a alma que despertara em pleno arco-íris. Mais à frente, um outro orelhão enaltece os ânimos, mas ele não está sozinho, acompanha-o uma vasta fila de desesperados.
Um a um, vão desligando o aparelho, alternando expressões, ora de alívio, ora de desalento, até que é chegada a sua vez. A telefonista atende. Precisa falar com o encarregado da seção. A musica o mantém na espera. Os créditos acabam, a esperança se esgota, e a agonia se exacerba.
Despido de seus direitos de cidadão, na exaustão da batalha, descansa o paletó em um dos braços, enquanto com o outro faz sinal para a lotação que se aproxima. Cabe mais um. Cabe o suspiro tímido de que talvez nem tudo esteja perdido.
No ar paira um clima de novidade, onde cada um se auto apodera do privilégio de dar a notícia em primeira mão.
De boca em boca, prefaciada com o pedido de “Não conte a ninguém, mas...”, chega aos ouvidos do Jeremias, a notícia de que o Elias fora promovido. O Elias que, dirigindo o seu fusca velho, mas que ainda funciona e transita nesta cidade onde não só o trânsito é caótico, chegou cedo ao escritório.
Entre decepção e constrangimento, o nosso protagonista atreve-se a dizer que o seu nome havia sido citado, e apenas recebe a confirmação displicente de que escutara errado. O nome era Elias.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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° Amido de milho
° Alho
° Azeitona
° Catchup
° Cebola
° Creme de leite
° Frango (peito)
° Leite
° Leite de coco
° Sal
° Vinho (branco,seco) 
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