Enquanto cortava em tiras três abobrinhas pequenas, e as refogava em duas colheres (de sopa) de margarina, com um dente de alho, moído, um desejo cuja realização vinha sendo adiada, por motivos que não cabe expor aqui e agora, se alvoroça dentro de mim, e os músculos do meu rosto chegam a se contrair, para conter a saliva de um certo sabor agridoce, que esta vontade produz. Não, não estou falando de comido! Bem, de certa forma até estou, pois toda esta ansiedade tem como objeto o livro “Afrodite”, de Isabel Allende, (a mesma autora de Casa dos Espiritos), o qual me foi indicado por um amigo, que adiantou tratar-se de uma obra deliciosa, onde gastronomia e erotismo fluem em perfeita integração.
Acrescentei ½ xícara de nozes picadas, ½ xícara de conhaque, 1 colher (de café) de tomilho, e deixei ferver por dois minutos, enquanto um exótico aroma seduzia o paladar.
Livros são alimento para a alma, e quando os ingredientes transpiram criatividade e sensibilidade, harmoniosamente, a memória guarda com prazer, cada nuance de sabor. No entanto, o seu conteúdo não é o único responsável pelo resultado da leitura. Precisa o leitor estar preparado para degustar e digerir toda a essência neles contida.
Algumas histórias, engraçadas ou curiosas, sobre a relação homem/livro, já me foram contadas.
Como a do sujeito que acaba de ler um livro, e reclama por o ter achado muito confuso, sem perceber que lhe faltavam algumas folhas.
Antigamente, havia quem comprasse livros por metro, como quem compra um bibelot, para colocar em qualquer canto vazio da casa, e nos dias de hoje, ainda existe quem compre livros usando como referência de qualidade, o tamanho destes. D. Romilda vive dizendo que só compra livros bem grossos para o seu filho, porque estes sim, são livros bons, dignos de intelectuais. No entanto, o rapaz de dezenove anos, não tem certeza se Tai Pan é o autor de Xogum, mas declara orgulhoso, que quem escreveu sobre Luis Fernando Veríssimo, foi a velhinha de Taubaté.
Tem também aquela Miss que citou “O Príncipe”, de Maquiavel, (ela sabia até o nome do autor), como seu livro de cabeceira, ao ser entrevistada após o resultado do concurso. Admiração!... Ela havia lido Maquiavel, quem sabe até Rosseau, Marx... A câmera aproxima-se, e o repórter pergunta-lhe o que achou que Maquiavel queria dizer com a sua obra. Trinta segundos esperando a resposta. Um olhar para a esquerda, outro para a direita, e a retórica falha. Close no repórter. Outra pergunta.
Juntei à abobrinha 2 xícaras de polpa de tomate, 1/3 de xícara de água, 1 colher (de café) de açúcar, e deixei ferver por 10 minutos. Enquanto isso, numa panela com água fervente e um fio de óleo, coloquei 250gr de spaguetti.
Passados os dez minutos, depois do molho ter apurado, e o spaguetti estar “al dente”, impregnada de aromas e divagações, juntei ao primeiro 1 xícara de creme de leite industrializado, envolvendo-o, e desliguei o fogo. Coloquei o segundo num prato grande redondo de porcelana colorida, e cobri-o com o colorido de verde e vermelho.do molho fumegante.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)


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° Açúcar
° Alho
° Conhaque
° Creme de leite
° Macarrão (spaguetti)
° Margarina
° Nozes
° Sal
° Tomate (polpa)
° Tomilho

° Abobrinha

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