_ Ele ligou esta semana?
_ Não!
_ Você ligou para ele?
_ Não!
_ Ele já sabe que é uma menina?
_ Não!
_ Tem alguma pergunta que eu possa fazer, para que você me responda afirmativamente?
_ Pergunta-me se sinto saudades, se continuo apaixonada, e eu te responderei que ele é o grande amor da minha vida, que o meu corpo estremece de desejo ao pensar no seu, que o cheiro da sua pele se sobrepõe a qualquer outro aroma que eu possa inalar, que os seus beijos povoam todos os meus sonhos e que não se esvaem quando acordo, porque o sabor deles alimenta as minhas lembranças no decorrer do dia, que gostaria de ao menos poder escutar a sua voz, mas o medo da indiferença imperativa que possa estar contida nela, me faz recuar e optar pela distância.
_ Você não alimenta nem uma pequena esperança de que venham a ficar juntos?
_ Não! Me pergunto porquê não deu certo, mas acho que é uma dessas coisas para as quais não se acha resposta.
_ Mas foi você que se afastou! Porquê?
_ É uma história que só o coração pode contar, porque as palavras não têm recursos suficientes para decifrar a sua linguagem, mas resumindo: na última vez que saímos achei-o diferente, distante, perguntei-lhe se havia outra pessoa, ao que ele me respondeu ter reencontrado alguém, na intenção de evitar uma dor maior mais tarde e de poupar-lhe a difícil tarefa de tomar uma decisão que pudesse constrangê-lo, acabei decidindo por ele. Você não imagina o quanto me doeu, tanto a sua resposta quanto a minha atitude, mas acho que tirei um peso das suas costas.
_ E quanto ao bebe?
_ Rreservo-lhe todos os direitos, e eximo-o de qualquer obrigação.
_ Mas isso não existe!
Através da pele da sua barriga, acariciou o fruto que trazia no ventre, como símbolo perpétuo de tão sublime sentimento, e deixou que o seu coração chorasse serenamente as lágrimas contidas.
_ Existe sim, e se chama “amor”.
Colocou água para ferver, com um fio de óleo e uma pitada de sal. Em outra panela, em duas colheres (de sopa) de azeite de oliva, refogou uma cebola e dois dentes de alho, moídos.
_ Só agora percebo o quanto deve doer essa saudade. Mas você me parecia tão feliz...
_ Eu sou feliz! Não cravei no meu peito o estigma da infelicidade, só porque não encontrei reciprocidade de sentimentos no homem que eu amo. Ele deixou dentro de mim a semente da vida, e isso já seria razão suficiente para viver plenamente reverenciando o maravilhoso milagre que é a própria vida, além do mais, você sabe, só sei ser feliz, seja de que forma fôr!
_ Isso é um dom!
_ Isso é um privilégio! A vida tem sido generosa comigo. Tenho amigas como você.
_ Não se atreva a me fazer chorar!
Sorriu ternamente e beijou-lhe a face, agradecendo aos anjos por momentos como esse. Acrescentou ao refogado meia xícara de conhaque e esperou que este fervesse. Na outra panela, acrescentou à água borbulhante, meio pacote de spaguetti, mergulhando-o por inteiro. O aroma embriagante do conhaque passeava no ar, mas era o cheiro da sua pele que lhe impregnava a alma, e os músculos do corpo se comprimiram no anseio pelo aconchego daqueles braços fortes que despertavam em calmo alvoroço o seu lado mulher.
Despejou sobre o conhaque três xícaras de polpa de tomate, uma xícara de nozes picadas, uma xícara de uvas passas sem semente, e deu o toque final com uma pitada de sal e dois galhos de manjericão. Mexeu, tampou parcialmente a panela, e abaixou o fogo.
_ Quantas vezes você já olhou para esse telefone?
_ Eu? Eu olhei para o telefone? Nem percebi!
_ Liga para ele, boba! Ele pode estar esperando que você ligue!
_ Não! Não quero incomodá-lo! Ele deve estar ocupado, talvez até namorando.
Escorreu a água do macarrão, espalhou-o numa travessa de porcelana branca, regou-o generosamente como molho, e colocou-o em cima da mesa, num apelo de sedução ao paladar. Virou-se para atender o telefone. Desligou. Brincou:
_ Não gostaram da minha voz! Desligaram!
Do outro lado da linha, alguém imprimira ao coração uma cadência imposta pela saudade e pelo pulsar de um sentimento ainda não decifrado, mas recuara, convicto de que não valeria a pena expor-se. Ela com certeza já o esquecera, fazia tempo que não ligava.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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