Meia
hora antes tirara do congelador uma lata de 1kg de sorvete de creme,
para que este adquirisse uma consistência mais maleável.
Bati com 1 xícara de pó de café solúvel,
e coloquei numa forma com furo no meio, para voltar ao congelador.
Ao refazer esta receita, que meu marido e eu havíamos criado,
o meu pensamento mergulha numa onda serena, de terna saudade. Por alguns
anos tive ao meu lado, condensado e exacerbado na mesma pessoa, todos
os eixos afetivos necessários à condição
humana. O meu melhor amigo, presente em todas as horas, as quais nem
posso discriminar como fáceis ou difíceis, porque ele
tinha o dom de minimizar as dificuldades, enfatizando cada nuance positivo
que espreitava em nossa vida, e descobrindo beleza e prazer na simplicidade
dos instantes. O grande companheiro, que divide o bom humor e multiplica
as gargalhadas, que busca na razão o equilíbrio para os
momentos em que a emoção se fragiliza, ou se torna cúmplice
na entrega ao deleite desta quando nos invade a alma. O mentor, que
me levou por caminhos antes desconhecidos, na dádiva do conhecimento,
mas que também se abria humildemente para aprender pelos meus
atos ou palavras o pouco que tinha para lhe ensinar. O pai, que se fortalecia
perante as minhas fraquezas, para me aconchegar num abraço protetor.
O filho, que se despe de suas defesas, e expõe toda a fragilidade
inerente a qualquer ser humano, tornando a minha força imperativa
pela necessidade. O amante, que mescla com paixão e romantismo
os momentos de prazer indescritível, fazendo-me sentir a mais
amada e desejada das mulheres. O marido e pai dos meus filhos, que me
deu uma família onde se compartilharam sonhos que se tornaram
realidade porque foram sonhados em conjunto.
Preparei duas caldas para acompanhar o sorvete, (também criadas
por nós, quando nos entregávamos à cumplicidade
do ritual gastronômico).
Numa panela, coloquei 1 xícara de suco de limão, 2 xícaras
de açúcar, meia xícara de água, 2 colheres
(de sopa) de raspas de limão e 1 colher (de café) de noz-moscada
(moída na hora). Levei ao fogo até que adquirisse uma
consistência de creme, e reservei.
Esta era a sua calda predileta, onde a acidez do limão era sutilmente
cortada pelo acre adocicado da noz-moscada, e envolvia o aroma marcante
do café.
Em outra panela, coloquei 1 litro de leite, 3 xícaras de cacau
em pó, duas colheres (de sopa) de açúcar e 1 cálice
de rum. Levei ao fogo alto até que fervesse, depois, em fogo
baixo e mexendo sempre, esperei que engrossasse. Reservei a calda, sem
tirá-la da panela, para esquentá-la mais tarde, pois esta
deveria ser servida quente.
Se reconstruí minha vida e meus ideais, e tive forças
e inspiração para resgatá-los quando o vazio parecia
ter tomado conta de mim, apenas quebrado pela dor das lembranças...
Se tive dignidade para levantar a cabeça e seguir em frente,
quando o abismo parecia iminente... Se experimentei o amor em toda a
sua plenitude, e pude saborear com todos e em todos os sentidos a magia
que se infiltra neste sentimento... Se hoje tenho consciência
da generosidade da vida, apesar da vulnerabilidade do tempo... É
porque tive ao meu lado, na construção de grande parte
da história da minha vida, alguém como ele.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
Este
conto continua em outra receita.