Casada
há alguns anos, sou testemunha de que o tempo, que contribui
para desenvolver, aprimorar e fixar em bases mais sólidas o vínculo
de amizade num contexto de amor pleno, desenvolvendo a compreensão
ao descobrir as imperfeições, classificando-as como característica
e não como defeito, sem que isso diminua a admiração
pela pessoa amada e apenas a incremente com atitudes benevolentes, podem
não apagar de maneira alguma a chama da paixão, a sensualidade
e o apetite sexual deste relacionamento, embora para isso dependa de
um empenho mútuo em reavivar essa chama no dia-a-dia, com pequenos
ou grandes gestos, onde o espírito apaixonado e a criatividade
devem estar presentes.
Foi num dia qualquer, sem nada em especial que o determinasse, além
do calor intensamente libidinoso que percorria cada milímetro
do meu corpo, provocado pelos hormônios em alvoroço, que
me dirigi à cozinha com a alma impregnada de fantasias, e deixei
que a própria sensualidade exacerbante me guiasse em cada passo.
Ostras e gengibre são ingredientes, tidos desde a Antiguidade
como altamente afrodisíacos, e eles serviriam como base para
o preparo de uma sopa mágica, capaz de ser aclamada pela própria
Afrodite.
Abri 16 ostras e retirei-as da casca, tomando todo o cuidado para não
machucá-las, (para que não escorresse o liquido contido
nelas), enquanto a minha imaginação se permitia a passear
pelos lençóis brancos, onde dois corpos se entregam à
satisfação do desejo, e cozinhei-as em ¼ de litro
de água. Separei as ostras da água, e reservei os dois.
Numa panela, refoguei levemente uma cebola picada, em uma colher (de
sopa) de manteiga. Acrescentei um talo de aipo, lavado e picado e refoguei-o
também. Juntei ¼ de xícara de conhaque, e esperei
ferver até que todo este aroma se infiltrasse pelas narinas,
despertando o paladar e invadisse a alma e se misturasse ao odor inebriantemente
característico do homem que exaltava o prazer em mim. Estremeci
à tênue e marcante sensação das suas mãos
percorrendo o meu corpo, conferindo à minha pele uma eufórica
anestesia.
Juntei a água das ostras, ½ litro de caldo de peixe, (de
preferência peixe de carne vermelha), e uma colher (de sopa) de
gengibre picado ou moído. Deixei ferver por 10 minutos.
Enquanto o caldo fervia, fervia em mim a ansiedade do desejo incontido,
a qual parecia conter a velocidade dos ponteiros do relógio.
Bati o caldo no liquidificador. Coei. Coloquei de novo na panela e temperei
com sal (a gosto), deixando ferver por mais 5 minutos.
Preparei o ambiente à luz de velas, e envolvi-o com a sensualidade
, num suave volume, do dedilhar das cordas, de Paco de Lucia. Na hora
de servir, acrescentei as ostras ao caldo.
Este seria apenas o começo de mais uma grande noite de paixão.
OBS:
Este prato contém oito ingredientes, propositalmente,
pois segundo a filosofia chinesa do Feng Shui, o número 8 é
considerado um número de sorte, porque há oito trigramas
no I Ching, sendo o número de hexagramas o quadrado de oito,
ou 64, o por isso os pratos com oito ingredientes são muito valorizados,
o que explica o nome de Oito Tesouros que muitos levam.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)