O
dia está cinzento. Cai uma garoa tão fina, que apenas
o chão úmido parece testemunhá-la, umidade que,
sutilmente vai se alojando sob as roupas e impregnando-se nos ossos,
contagiando o espírito. É em dias como este que, numa
tímida tentativa de cromoterapia, abro o meu armário e
procuro as roupas mais claras ou as cores mais vivas, para encenar a
luta contra o baixo astral. Não é uma fórmula infalível,
mas a batalha por si só, fortalece os ânimos e enfraquece
o desânimo.
Mesmo numa manhã em que o sol se esconde, e os galhos das árvores
se tornam friso e escorregadios, os pássaros cantam, e encantam
quem consegue parar para escutá-los, e esses prescindem de adornos
coloridos, porque até os mais camuflados no ocre do outono soltam
suas vozes e cantam seus vôos.
A Dona Depressão de vez em quando me visita, e ela parece escolher
exatamente os dias em que o tempo pode se tornar seu cúmplice,
ou os momentos em que a solidão esvazia o espaço de qualquer
elemento que possa combatê-la. Não se trata apenas da ausência
da Euforia, mas de uma angústia que se instala em meu peito,
que o comprime até fazer as lágrimas brotarem, lágrimas
que vêm sem remetente, sem conteúdo, sem destino, apenas
brotam e me encharcam de inércia. Mas há que seguir em
frente, há que ir em busca daquilo que nos faz bem, há
que se preparar para receber sorridente os dias que trazem o sol, mesmo
que esse sol não ilumine o céu das manhãs ou tardes,
mas o céu do nosso espírito. Por isso convido a Dona Depressão
a se retirar, troco a minha fantasia, e preparo um banquete para o alto
astral.
Agenda: quatro nomes selecionados. Telefone: nenhum pretexto em especial,
apenas muita convicção no apelo para a emoção,
que desperta o desejo de uma tarde descontraída, na companhia
de grandes amigas. Resultado: encontro marcado. Preparativos: lareira
acesa; flores espalhadas, desafiando o dia cinzento; álbum de
fotos a postos; e um largo sorriso no rosto.
Envolvida pelo entusiasmo dos momentos que antecedem o reencontro, mergulho
na cozinha, e nado com braçadas esmeradas rumo ao paladar.
Ligo o forno para que vá aquecendo. Coloco numa bacia 2 xícaras
de farinha de trigo, 3 colheres (de chá) de fermento em pó,
1 xícara de manteiga, 2 colheres (de sopa) bem cheias, de açúcar,
e 1 colher (de café) de sal. Amasso tudo com as mãos,
até que os ingredientes se misturem bem. Bato 3 ovos inteiros
com ¾ de xícara de leite, e misturo à massa. Mexo
com uma colher de pau, até que esta fique homogênea e não
muito mole.Desta vez não foi necessário, mas dependendo
do tamanho dos ovos, às vezes tenho que acrescentar um pouco
mais de farinha. Polvilho as mãos com farinha e faço bolinhas
de mais ou menos 5cm de diâmetro. Recheio-as com um cubinho de
provolne, e volto a fechá-las. Coloco-as numa assadeira untada
com manteiga, e polvilho-as com queijo parmesão ralado. Levo
ao forno, até que fiquem douradas, por mais ou menos 15 minutos.
Enquanto os scones assam, providencio chás, chocolates, torradinhas,
geléias, frios, truffas, etc... e preparo a mesa com toda a dedicação
de quem embrulha um presente, para alimentar o corpo e a alma.
Embrenhadas em risos e sorrisos, braços e abraços, elas
vão chegando e se aconchegando.
Márcia é a que fala mais alto, mas a que menos se faz
ouvir. Sabe tudo de tudo, mas tropeça nas respostas, acredita
mais nas histórias que conta, do que consegue fazer os outros
acreditar, mas é divertida, e contagia a todas, que a premiam
com boas gargalhadas, num gesto de cumplicidade às suas divertidas
mentiras.
Joice é a comportada. Não ri em público, apenas
sorri. Politicamente correta. Funcionária perfeita, esposa perfeita,
mãe perfeita, filha perfeita, amiga perfeita. Tão perfeita,
que se considera imperfeita em tudo. Suas atitudes, e até a própria
filosofia de vida, são norteadas pela moderação.
É aquela que nos escuta atentamente, e depois sempre tem na ponta
da língua, pausadamente, uma avaliação coerente,
onde a razão predomina sobre a emoção.
Rita é a endiabrada. Não necessariamente a mais nova das
quatro, mas a mais ingenuamente infantil. Namora quem, e o quanto a
vida lhe permite, e embora respeite displicentemente os sentimentos
alheios, vive rodopiando com os seus, num eterno carrossel. Não
fazer hoje, o que pode deixar para amanhã, ou fazer de imediato
o que pode fazer de novo amanhã, e de novo, e de novo... é
o seu lema constante. Começou três faculdades, e não
terminou nenhuma. Casou três vezes, e terminou sozinha, mas não
solitária. Veste qualquer coisa, e qualquer coisa a veste muito
bem. Procura ouvir a todos, mas se dispersa com facilidade.
Maria, é a Maria, mãe de todos. De aparência doce
e frágil, fortalecida pelas lutas que a vida lhe impôs.
Sem exageros, mas também sem normas de equilíbrio. Faz
quase sempre o que gosta, e algumas vezes o que não gosta, porque
gosta de ver os outros felizes. Escuta a todos, apenas escuta, ri ou
chora conforme a empatia que a invade, e deixa que a sua serenidade
nos invada também. É a quase ausência de razão,
e a plenitude da mais latente emoção, mas uma emoção
sem dramaticidade, a emotiva paixão que motiva a vida. Maria
acaba de descobrir que tem câncer, e nos conta como se estivesse
contando sobre os planos de uma viagem que teve que ser cancelada, mas
quem sabe... em uma outra época...
Um raio de sol aproveita a transparência da janela, e corta a
xícara sobre a mesa, onde o chá adquire tonalidades diferentes,
num dia que parecia cinzento.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)