A mão direita gira a chave. A serena ansiedade gira a vida, enquanto o tempo, imperativo, gira na trajetória dos ponteiros do relógio. A mão esquerda segura a direção. Cabeça reta, concentrada na seqüência de movimentos. Coração em desalinho, desconcertado pelo aglomerado de emoções. O barulho do motor ocupa o parágrafo seguinte. Pisa na embreagem e engata a primeira. Acelera. Engata a segunda... terceira... quarta... Milímetro por milímetro, sucessivamente, em velocidade variável, os pneus riscam o chão, e a alma escreve com as tintas da esperança, a perspectiva dos dias que virão.
As pessoas e coisas tornam-se relâmpagos, na passagem pelo campo de visão, até que uma frágil silhueta se destaca, em meio à multidão de abraços de quem chega e quem parte. Ana esquece as malas, esquece o tempo, esquece a distância, esquece a triste notícia que a trouxe de volta... Corre para ele, e na ponta dos pés, pendura-se em seu pescoço, enquanto seu corpo cede aos braços fortes que a envolvem, comprimindo o espaço e libertando o desejo, e sussurra-lhe:
_ “Como é bom poder tocar você!”
Imersos no silêncio onde não cabem palavras, porque a emoção transborda em acordes delirantes, caminham até ao carro como se tudo em volta se resumisse ao próprio ar que respiram, impregnado e alimentado pela chama do amor que os torna cúmplices.
A mão de Jonas solta a direção, e procura avidamente a dela. Os dez dedos intercalam-se, os dez segundos multiplicam-se. Ana se embriaga na contemplação do seu rosto, e ama cada traço tão marcadamente traçado em sua mente. Fecha os olhos, e sem olhá-lo, ama-o de novo.
Após o impacto do reencontro, cuja euforia se exacerba na percepção daquilo que não precisa ser dito, dividido entre a plena certeza da resposta e o tímido receio do inesperado, Jonas corta o silêncio:
_ “Você vai ficar na minha casa?”
_ “Existe algum outro lugar onde eu possa ficar mais perto de você?”
Ele sorri aliviado... contente... feliz... mergulhado no êxtase da paixão:
_ “A minha cama!”
_ “Calma! Chegaremos lá!”
Ela sorri enternecida... encantada... envolta na descoberta de tanta felicidade.
_ “Devemos traçar um plano do que faremos nos três meses que nos restam, ou nos deixaremos conduzir pelo acaso?”
_ “Faremos planos, mas permitiremos que o acaso os altere.”
_ “Então começaremos por decidir onde vamos almoçar!”
_ “O meu lado egoísta se recusa a dividir você com o garçom. Poderíamos voltar aos velhos tempos, e preparar uma daquelas saladas, em sua casa.”
_ “Adoro esse seu lado egoísta!... Então está combinado. Eu preparo a sua salada predileta, e você prepara a minha. Caso você ainda se lembre.”
Ana quis dizer-lhe que poderia esquecer seu próprio nome, mas havia esculpido em sua memória cada detalhe dos momentos que compartilhavam, alimentando-se deles quando o tempo e a distância quiseram fazê-la sucumbir à dor da saudade. Mas guardou as palavras no coração, para mais tarde transformá-las em gestos.
_ “Bem, eu começarei forrando o fundo de um prato com finas rodelas de beterraba cozida. Depois... depois me aproximo de você, e beijo sua nuca. Volto para a salada. Enquanto cozinho duas maçãs sem casca e sem semente, com um pouco de água, e casca de limão. Beijo o seu rosto. Bato as maçãs no liquidificador, (sem a casca de limão), para formar um purê, com o qual faço um pequeno monte no centro do prato. Novamente, aproximo-me de você, aproximo os meus lábios da sua orelha...”
_ “...E me beija novamente.”
_ “Não. Pergunto se você prefere palmito ou mussarela de búfalo. Você resolve deixar ao meu critério. Então, eu espalho em volta do purê de maçã, algumas bolinhas de mussarela e abacaxi picado. Triunfante, por não ter me esquecido de algum detalhe, tempero a salada com azeite de oliva, sal e pimenta do reino, moída na hora.”
_ “Entretanto, no intervalo dos seus beijos, eu preencho o fundo de um prato, com alface crespa picada. Paro, enquanto você beija a minha nuca. Faço uma segunda camada com folhas de agrião... e a minha atenção se vira para você...”
_ “Porque eu estou beijando o seu rosto.”
_ “Não. Pergunto se você prefere parmesão ralado ou crutouns. Indiferente à minha pergunta, você me beija no rosto, e eu polvilho a alface e o agrião com crutouns e pedacinhos de bacon torrado. Bato no liquidificador 1 ½ xícara de agrião, 3 colheres (de sopa) de azeite de oliva, 1 colher (de sopa) de vinagre e 1 colher (de sobremesa) de mostarda. Rego a salada com o molho.”
_ “Você ainda se lembra!...”
_ “Fiz da lembrança dos momentos que passamos juntos, o meu livro de cabeceira.”
Ana aperta a sua mão, num gesto de reciprocidade, e abriga o seu coração no aconchego das palavras que acaba de ouvir.
_ “E depois de saborearmos essas deliciosas saladas?”
_ “Nos entregaremos ao sabor da paixão, saciando o nosso desejo, e nos embriagaremos de amor!”
O carro pára no farol. O coração se acelera na ânsia dos momentos que estão por vir. As bocas se procuram e se revelam.
Haviam se conhecido três anos atrás. Apaixonaram-se, amaram-se. Ana recebe uma proposta de trabalho extremamente tentadora, que propicia a sua ascensão profissional e a realização dos sonhos que compartilha com Jonas, mas para isso precisa viajar para a Europa, onde permanecerá pelo período de um ano. Chegam a um consenso e ela viaja. Seis meses depois, Jonas descobre que está com câncer, e o diagnóstico restringe a sua expectativa de vida a três meses. Após ter decidido não contar nada a Ana, para que ela possa seguir o seu caminho sem qualquer intervenção, não consegue digerir, mais do que a dilacerante saudade, a dor atroz de não reencontrá-la, e se debate com a percepção de não estar dando a Ana o direito de fazer sua própria escolha, em face nos determinantes acontecimentos. Reavalia a sua decisão, e conta-lhe sobre a sua saúde. Ana, que recebe a notícia com a mais profunda sensação de perda, sobre aquilo cuja conquista ainda se encontra em processo de construção, não pensa duas vezes, larga tudo, e no dia seguinte pisa no aeroporto do Brasil, esquecendo as malas, o tempo, a distância, a triste notícia... Correndo para abraçar com o corpo e com a alma, aquele que se tornou dono do seu coração, com o qual dividirá completa e totalmente os próximos meses, multiplicando o tempo em momentos de felicidade.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
 
Salada De Beterraba...
° Abacaxi
° Azeite
° Beterraba
° Limão (casca)
° Maçã
° Mussarela de Bufala
° Pimenta do Reino
° Sal
Salada Com Molho...
° Agrião
° Alface Crespa
° Azeite
° Bacon
° Croutons
° Mostarda
° Vinagre
Receitas De Saladas
Contos De Amor
 

SABOR

/RECEITAS