A pequena bolsa cujo logotipo identificava uma academia de ginástica, solta entre os dedos, acompanhava a cadência do passo, meticulosamente transcrito nas pedras da calçada. Nenhum movimento ou gesto era efetuado deliberadamente, neles estava embutida toda uma rigidez de padrões estéticos e comportamentais, rigidez essa que só a prática e o aperfeiçoamento haviam conseguido tornar desapercebida aos olhos de quem passava. E quem passava eram os outros, porque ela apenas deslizava por entre a multidão de formas e cores caóticas. Os olhares não deflagrados podiam ser adivinhados em suspiros de desejo, exaltações de admiração, desdém pela beleza da embalagem,( na determinante torcida para que o conteúdo, em tudo se opusesse àquilo que a vista alcança), esperança de conseguir a fórmula mágica na sala de uma academia... Incomodada com aquilo que costumava classificar de desalinho, representado na rouquidão dos motores, no murmurinho de vozes gesticuladas, nos risos que se atropelavam sob o uniforme da escola, ou no silêncio que as expressões decodificam, apressou o passo, aprisionou o espírito, e determinou o olhar à análise da figura que refletia na imensa porta de vidro.
O porteiro, mais do que acostumado à exigência da precisão, de olhar contido e sorriso tímido, abriu-lhe a porta, recebeu como recompensa um quase imperceptível gesto de cabeça, e mesmo quando ela lhe virou as costas, dirigindo-se ao elevador, o seu olhar continuou baixo, absorto na indagação da origem de uma mancha que acabara de descobrir no tapete.
Num gesto automatizado pela repetição, jogou a bolsa em cima do sofá. Olhou o telefone. Havia alguns dias, mudo. Olhou o livro em cima da mesa. Que após algumas páginas desinteressadas emudecera também. Olhou os objetos à sua volta. Nem reparou no vazio que os impregnara. Dirigiu-se à cozinha onde o choro do parto ecoava a cada instante na elaboração de pratos, (mesmo que submetidos ao mais baixo valor calórico), onde a vida pulsava na descontração de gestos que se despiam de padrões e se vestiam de prazer, e onde o diálogo fluía em aromas e paladares. Lavou algumas folhas de rúcula, e dispersou-as numa travessa de plástico colorido. Desfiou algumas fatias de presunto de Parma. Deitou-as sobre as folhas, como se deitasse o próprio espírito à sombra da primavera. Em cima destas, distribuiu uma xícara de pequenos tomates-cereja, cortados ao meio, cujo vermelho florescia como flores num jardim. Seguidamente, distribuiu também uma xícara de palmito em rodelas. Descascou uma manga, mergulhando no doce perfume que exalava de cada fibra, cortou-a em tiras, que intercalou nos espaços entre os tomates. Regou generosamente com duas xícaras de morangos, (batidos no liquidificador) , duas colheres (de sopa) de azeite de oliva, e uma colher (de chá) de mostarda). Por fim, polvilhou com uma xícara de nozes moídas a grosso-modo.
Enquanto se mantinha contemplativa na composição de verdes, vermelhos, laranjas e ocres, bebendo neles todo o frescor, a campainha toca. Chocada, mas não surpresa, com a desarmonia das peças que cobriam o corpo de formas desproporcionalmente arredondadas, não conseguiu excluir de sua impressão, a confiabilidade e instantânea empatia que transpirava no rosto limpo e límpido daquela mulher. Limpo, sem vestígios da maquiagem cosmética, ou da que se curva aos padrões de aceitação. Límpido, na clareza dos gestos e expressões.
Em meio a perguntas e respostas de ordem prática, convidou-a a compartilhar da salada que acabara de preparar. Estranhamente, esta atitude incabível no pequeno mundo em que plantara seus conceitos, lhe trazia uma sensação de tênue alegria, que se atrevia a degustar. Convite aceite, tímida descontração, gestos informais, mas não grotescos, palavras simples (algumas de boca cheia), sorrisos abertos... Ela sorriu!

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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