Marina
passeia os dedos pelo controle, e muda aleatoriamente os canais da televisão.
Pela enésima vez estica o olhar até ao telefone, mas este
insiste em permanecer mudo. Cruza e descruza as pernas, como se estivesse
em plena atividade aeróbica. Solta o coração em
cavalgada, mas o galope a leva à exaustão e resolve puxar
as rédeas, nas páginas de um livro. Atropela as palavras,
contorce as frases, deturpa o sentido e entorpece os sentidos. Bebe
um gole de vinho, enquanto se embebeda de ansiedade. O telefone toca.
Não sabe se desfalece ou se renasce. Era engano. Engano de quem
liga, engano de quem atende. Olha o relógio, mas não vê
as horas, só vê o tempo passar, castigando cada segundo.
Desliga tudo. Quer se desligar. Apaga as luzes e vai dormir. Vai fingir
que dorme, fingir para si mesma. Puxa o edredom, e empurra a decepção.
Fecha os olhos e abre as opções. Entrar num chat para
jogar conversa fora, ligar para uma amiga e despejar seus lamentos,
ligar para todos e não ligar para nada. Deixa a água correr,
esperando estancar sua inquietude, enquanto a banheira quase transborda.
Recua, olha o telefone. Prossegue na neblina morna, e mergulha no liquido
quente.
Primeiro toque, não acredita. Segundo toque, não quer
acreditar. Terceiro toque, tudo o que quer é atender a tempo.
Enrola-se na toalha, e mais do que corre, se transporta, deixando no
chão as marcas molhadas da febre do desespero.
_ Acabo de chegar do litoral. Estou trazendo uns camarões. Pensei
em trocar a companhia da fome pela sua. Topa fazer aquele risoto?
_ Por quê não... Estarei esperando.
Termina o banho, (desta vez no chuveiro), deixa cair sobre o corpo perfumado,
a maciez do vestido azul, sacode os cabelos molhados e, mesmo descalça,
desce para abrir a porta. Seu sorriso é convidativo, sua expressão,
jovial, sua companhia, encantadora. Ele a abraça numa saudade
exacerbada, e ela se deixa contagiar enquanto o conforto lhe passeia
pela alma. Velhos amigos também trazem sensações
novas. Se olham, se interrogam, se inibem, se calam, mas não
calam no peito o prazer de estar juntos, e trocam confidências.
Ele limpa os camarões. Ela lava uma xícara de arroz parbolizado,
e reserva-o. Ferve uma xícara e meia de leite de coco. Em uma
frigideira grande, em fogo moderado, derrete duas colheres (de sopa)
de manteiga e uma colher (de sopa) de azeite. Junta uma cebola pequena,
finamente picada, e um dente de alho, bem picado. Refoga por um minuto.
Acrescenta o arroz, uma pitada de sal, e o frita por dois minutos, sem
parar de mexer. Enquanto isso, numa frigideira também, untada
com um fio de azeite de oliva, ele doura os camarões, tempera-os
com um dente de alho moído, uma pitada de sal, e pimenta do reino.
Rega-os com duas colheres (de sopa) de conhaque, e espera que este quase
se evapore. Junta uma xícara de buquês de brócolis,
e mexe por mais três minutos, finalizando com meia xícara
de creme de leite.
No espaço reduzido em frente ao fogão, não se chocam,
apenas se resvalam. Inspiram o aroma, e transpiram desejo. Os braços
se tocam, o assunto se dispersa, os hormônios se precipitam, e
os corações se preservam. Na taça de vinho tinto,
em cima da mesa (ele sempre insistia em dividir o mesmo copo), se bebiam
anseios contidos.
Marina coloca no arroz o leite de coco, ainda quente, e deixa cozinhar
até que a mistura fique cremosa. Por fim, acrescenta a mistura
que Antonio preparara, juntamente com meia xícara de provolone
cortado em cubinhos, e deixa cozinhar por mais um minuto, apenas para
que o queijo derreta levemente.
Entregam-se ao sabor do risoto, esquecem os dissabores dos desencontros,
e saboreiam a serenidade do momento, em sobressaltos do que virá
depois.
O telefone se manifesta. Ela atende ao quinto toque.
_Esqueci de ligar. Você estava acordada?
Despertada da passividade em que a amizade os envolvera, olha para o
homem à sua frente, e se percebe mulher.
_Não! Acabo de acordar!
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)