A
bola resvalava descontraída pelo chão do quintal, às
vezes obedecendo à trajetória intencionada pelo chute,
e outras, contrariando desafiadoramente o intuito daqueles pés
juvenis. O rouco som da impulsão, e das passadas ora frenéticas,
ora moderadas, era sobreposto aqui e ali por interjeições
que poderiam descrever entusiasmo ou lamento, mas jamais conformismo,
porque havia toda uma energia impregnada em cada movimento. Observando-os,
analisei que a competição talvez estivesse sendo usada
como um meio para se chegar à exaustão, porque qualquer
que fosse o resultado desta disputa, a complacência triunfava
em comentários generosos sobre o desempenho de cada um. Esta
harmonia fazia-se presente em todas as atividades compartilhadas por
aqueles que apelidei de “os três Arcanjos”, Daniel,
Gabriel e Rafael.
Daniel era o mais velho, gerado no meu próprio ventre, recompensara
todas as dificuldades do parto com dezesseis anos de comportamento linear,
apenas interrompido por momentos lampejantes de entusiasmo e surpreendíveis
manifestações de carinho. Daniel escondia por baixo dos
sinais característicos da puberdade, representados por espinhas
grosseiras e a iminência tímida de uma barba, traços
que permitiam prever um homem bonito. Determinado, com um equilíbrio
sereno entre a razão e a emoção, triunfara em tudo
em que se empreendera com relevante interesse, e tinha metas defenidamente
traçadas, embora não as encarasse com excessiva obsessão.
Gabriel, apenas alguns meses mais novo que Daniel, nascera de um ventre
que desconheço, mas conquistara em meu coração
a plenitude de qualquer sentimento que possa ser atribuído a
uma mãe. Fora alimentado pelo meu peito meu peito, e alimentara
a minha alma com eternas e infinitas demonstrações de
um amor envolvente. As espinhas já haviam terminado sua fase
de efervescência, e a barba exigia cuidados quase que diários.
Traçava suas próprias metas, embora as submetesse à
minha avaliação. Era um idealista por natureza, debruçando-se
com extrema lealdade sobre seus princípios. Falava pausadamente,
nas poucas vezes que o fazia, mais empenhado em ouvir e observar.
Rafael, presumo que tenha nascido poucos anos depois, pois encontrei-o
nas ruas, sem documentos, sem vínculos afetivos, sem nome, na
linha que extingue a vida e apenas tem a sobrevivência como objetivo.
Introvertido e portador de uma insegurança perceptível,
contorcia-se de dúvidas, embora tivesse sido generosamente dotado
de capacidades múltiplas. Tinha um coração capaz
de alojar o mundo mas ainda não aprendera a decifrar seus próprios
sentimentos.
Empenhei-me na elaboração de um lanche que ajudasse a
repor as energias dispendidas, e ao mesmo tempo representasse um sutil
tributo ao paladar.
Em um recipiente grande, de profundidade média, bati 6 gemas,
½ xícara de creme de leite, 2 colheres (de sopa) de açúcar,
1 colher (de sobremesa) de canela em pó, e ½ xícara
de nozes moídas. Cortei seis rodelas (com mais ou menos 2cm de
espessura) de pão francês (duro), e coloquei-as no preparado,
virando-as alguns minutos depois, para que este fosse bem absorvido
pelo pão. Dispus as rodelas numa assadeira levemente untada com
óleo, e levei-a ao forno alto (pré-aquecido). Após
aproximadamente 15 minutos, as rabanadas estavam douradas, retirei-as
do forno e coloquei-as harmoniosamente em uma travessa.
Pude me entregar ao prazer de contemplar, impregnada de satisfação,
o fruto da minha dedicação sendo devorado entre suspiros
de aprovação, por olhos e bocas de apetite insaciável.
Daniel colocara imediatamente duas rabanadas em seu prato, e as saboreava
sem pausa para reconhecimentos, embora desenhasse em seu rosto uma expressão
extremamente crítica, calçada em toda a coerência
que lhe era peculiar. Gabriel optara por servir-se de apenas uma, a
principio, e a degustava serenamente, enquanto me dirigia olhares ternos
de aprovação. Rafael, mais do que depressa fizera as contas,
e soltara uma interjeição de insatisfação
ao perceber que lhe cabiam apenas duas. Devorou-as com sofreguidão,
e deteve-se a olhar o prato vazio, com resignação.