Diego trazia no olhar a mais límpida expressão de uma felicidade latente. Inquieto por excelência, imprimia aos seus gestos e atitudes uma seqüência ininterrupta, onde a determinação se fazia notável e notória.
Os primeiros anos de sua infância, cuja história se comprimia entre as quatro paredes de um orfanato, ganhavam espaço nas suas lembranças, e alçavam vôo numa imensidão sem limites, onde risos, brincadeiras, amigos, proteção, e reciprocidade de bons sentimentos davam piruetas como se fossem bolas coloridas num gramado verdejante. Num dia mágico, sobre o qual sequer haviam sido traçadas expectativas, alguém o distingue entre as outras crianças, e o aloja no coração de uma forma pessoal e intransferível. A partir de então, ganha um novo endereço onde o contexto família se faz presente em todos os instantes, e sua vida traça novos rumos. As acomodações são modestas, seu quarto é infinitamente pequeno, mas é só seu, os poucos brinquedos se acomodam sorridentes e convidativos a um canto da estante improvisada, e os lençóis brancos o aconchegam nas noites de bons sonhos, depois de ajeitados e amarrotados pelo caloroso abraço daquela que o escolheu como filho.
Trabalhou com empenho, sem medir esforços, e estudou com a avidez de quem está decidido a chegar ao lugar onde habitam os homens bens sucedidos, e nele se destacar. Por isso o seu dia-a-dia era corrido, sem intervalos para o lazer, ou para os devaneios que de uma forma ou de outra costumam caracterizar a adolescência, e assim esta se tornara quase imperceptível, passando num pulo para a fase adulta. Mas não se lamentava por isso, e encarava este fato com o peito cheio de orgulho e o coração impregnado pelo amor que nunca lhe faltara.
Fazia dos poucos instantes em que não estava preso a compromissos com horários ou livros, momentos intensos, embora breves, onde as palavras e os carinhos trocados com a sua mãe, tentavam colocar em dia os sonhos e sentimentos compartilhados.
Entra em casa, trazendo no rosto a euforia de quem prepara uma surpresa, e debaixo do braço um pacote, que depois de aberto revela nada mais do que uma pipoqueira. Envolve Dona Ana numa brincadeira de beijos e abraços, e em seguida, entusiasmado, quase a arrasta até à cozinha. Acomoda-a numa cadeira, enquanto contempla sorridente a expressão de expectativa e espanto, desenhada entre as rugas dos quase setenta anos, e com gestos teatrais de quem oferece um glamoroso espetáculo, coloca na pipoqueira uma xícara de milho para pipoca. Cobre este com óleo, e leva ao fogo por alguns instantes. Acrescenta uma xícara de açúcar, (previamente misturado com uma colher (de sobremesa) de canela, e ½ xícara de uvas passas (brancas e sem sementes). Mistura tudo, e espera que o primeiro milho estoure. Então, joga ¼ de xícara de vinagre branco, tampa a panela, e continua mexendo com a haste que torna este utensílio especifico para o preparo de pipocas.
Enquanto os grãos de milho se abrem, numa sinfonia saltitante, Diego vira o rosto, e declara àquela senhora de rosto terno e cabeça coberta por um véu totalmente branco, cuja primeira lembrança está marcada pelo frescor de um perfume que anos mais tarde veio a identificar como alfazema, sem palavras, num olhar apenas decifrável na íntegra pelo coração materno todo o amor que lhe povoa a alma

 
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° Açúcar
° Canela
° Milho (para pipoca)
° Óleo
° Uva Passa
° Vinagre
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