A pequena casa de tijolos aparentes e decoração rústica, escancarava suas portas e janelas para receber a brisa marítima, numa tentativa de amenizar o calor que transpirava naquela manhã de verão. O chão, de cimento queimado, recebe em sua passividade o vai e vêm dos pés descalços, embrutecidos pela constância da nudez, e cujo matiz havia sido adquirido através dos implacáveis raios ultravioleta. As pernas, de músculos endurecidos, permaneciam descobertas até à altura dos joelhos, onde as calças de um branco envelhecido, enroladas displicentemente pela metade, começavam a cobrir o seu prolongamento. O tronco, desprovido de qualquer adereço ostentava braços fortes, e as mãos esguias, de uma aspereza imposta pelo manuseio com a rede, conservavam em seus gestos toda a ternura que transborda da alma. Essas mesmas mãos haviam limpado um pintado, (conservando a cabeça), e o deixado de imerso de um dia para o outro, num preparado que consistia em meio litro de qualquer espumante seco, um copo de suco de manga, quatro dentes de alho moído, duas cebolas raladas, um pouco de gengibre também ralado, sal e algumas folhas de hortelã.
O coração deste pescador acostumado a se deixar envolver pela serenidade do mar, ou a enfrentar com respeito a sua tempestuosa rebeldia, se exaltava na ansiedade por um momento em que o ar daquela casa se impregnasse da voz, do cheiro e dos movimentos de uma mulher.
Enquanto descascava três batatas, (médias), e três maçãs verdes, abriu um sorriso largo de perfeitos dentes brancos. Fôra a tímida espontaneidade do seu sorriso que mais o encantara, talvez tivesse sido o brilho inebriante das pupilas que se fixaram limpidamente nas suas, ou talvez toda a envolvente, mas discreta sensualidade com que virara a cabeça, para depois desaparecer por entre os coqueiros... Cortou as batatas e as maçãs em cubos, ferveu-as por cinco minutos, com uma pitada de sal, e reservou-as. Pegou uma travessa de barro, regou-a com um fio de azeite de oliva, deitou sobre ela o pintado, preencheu o espaço lateral com as batatas e as maçãs, regou tudo com o molho em que ficara mergulhado desde o dia anterior, cobriu com uma folha de papel alumínio, e levou ao forno pré-aquecido durante meia hora.
No alpendre, onde se podia contemplar a serena imensidão do mar, e o aveludado azul do céu, só interrompido pelo cálido amarelo do sol, sobre a pequena mesa de madeira bruta, haviam sido colocados dois retângulos de palha entrelaçada, e sobre estes, dois pratos de barro, (com os respectivos talheres), duas taças de estanho, (onde seria derramado um vinho branco gelado, e por onde se embebedaria sutilmente a alma de anseios), e dois guardanapos de linho rústico, vermelho. Dispôs as cadeiras em posições opostas, uma de frente para a outra. Primeiro viria o despertar do paladar, explorado em cada textura, envolvido pelo afrodisíaco sugerido em cada ingrediente. Depois, a tentativa de decifrar as palavras não ditas, na expressão que se desvenda e se torna cúmplice. Em seguida, o toque da ponta dos dedos trêmulos de desejo, a ânsia incontida de mãos entrelaçadas, a explosão de dois corpos ao sabor do prazer a que a paixão convida.
Retirou o papel alumínio que cobria o pintado, e deixou-o assando por mais meia hora. O barro iria escurecer pelo calor que absorvia, e um leve dourado cobriria o alimento. Abriu os braços, tocando com a extremidade da cada um as toras grossas que sustentavam o alpendre. Abriu o peito inspirando a força que vinha do mar, para tentar esconder o alvoroço da lentidão das horas, na pulsão de uma paixão que transforma os homens em meninos inquietos e inseguros. Fechou os olhos, e depois abriu-os, esperando perceber por entre os coqueiros o andar sinuosamente lento, disfarçando toda a ansiedade que só a alma de uma mulher sabe disfarçar, e o coração de um homem apaixonado consegue desvendar.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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° Pintado
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