Empenhada
na preparação da ceia, e embrenhada no calor do fogão
que transpira aromas e sabores, tento imprimir a cada gesto, cada tempero,
toda a gratidão que se exalta serenamente em meu peito, a magia
da vida numa generosa oportunidade de poder contemplar humildemente,
tantas bocas famintas e corações sedentos, com uma festa
que alimentará o corpo e a alma.
Tiro da geladeira um imenso peru, que temperara na véspera com
três xícaras de conhaque, 4dentes de alho, moídos,
2colheres (de sopa) de anis, um ramo de tomilho, um pedaço de
canela em pau, e uma pitada de sal, tendo-o virado quatro vezes, para
que o tempero se impregnasse por completo. Ao debruçar-me sobre
este ritual com toda a intensidade da alma que vivencia o paladar, os
meus pensamentos viajaram para um lugar e tempo que desenhou na minha
memória uma das experiências mais gratificantes da minha
vida, (para não dizer a mais, pois o valor de cada instante é
volátil e se define em função do momento em que
é reconhecido).
A miséria, onde a fome reina absoluta e a falta de recursos faz
com que a saúde se deteriore e a vida se esvaia dolorosamente,
tirara de mim, prematuramente, meus pais. Quando a plenitude da felicidade
parece ter se instalado comodamente no meu dia-a-dia, perco meu marido
e meus dois filhos num acidente de carro. Revoltada com a aspereza das
circunstancias em que me fora tirado aquilo que eu já achava
definitivo, e alheia ao que de bom ainda poderia absorver da vida, parei
de viver, e entreguei-me à inércia da sobrevivência.
Exatamente na noite do dia 24 de um ano qualquer, sentada no banco de
uma pracinha, dispersa do presente, e presa à atormentada dor
do passado, nem percebi que alguém se sentara ao meu lado, e
fui pega em sobressalto quando a mão de uma criança se
estende para mim com um pedaço de pão, convidando-me a
dar de comer aos pombos que haviam se aglomerado à nossa frente.
A princípio recusei, mas a generosidade que se traduzia na alegria
contagiante daquela criança, despertou em mim a vontade de compartilhar
aquele momento, e arrancar dele mesmo que uma tênue sensação
de bem estar. Não sei por quanto tempo permanecemos transformando
em migalhas alguns pedaços de pão duro, e jogando-as ao
chão, na contemplação dos pombos que vinham recolhê-las,
mas pude perceber naquele menino, (sem pais, sem família, sem
casa, que apesar de tudo, me dizia num sorriso aberto, que um dia ainda
seria professor, para ensinar a outras crianças tudo aquilo que
sempre quisera aprender), o milagre da multiplicação da
esperança.
Polvilhei o peru com um pouco de açúcar, coloquei-o numa
assadeira untada com um pouco de óleo, rodeado por batatas doces
bem lavadas e cortadas em pedaços, conservado-lhes a casca, reguei
com o que restara do molho, cobri com papel alumínio e levei-o
ao forno médio, pré-aquecido, por aproximadamente uma
hora.
Naquele dia 24, voltei para casa envolta na mais sublime sensação
de paz, decidida em dar à minha vida um sentido que ajudasse
outras pessoas a encontrarem o sentido da própria vida.
Retirei o papel alumínio, e deixei que o peru e as batatas dourassem
por mais uma hora.
O aroma delicioso que embriagava o espírito de Natal, cutucava
a curiosidade das crianças, e convidava algumas expressões
esfuziantes a se manifestarem de vez em quando, timidamente, pela pequena
fresta da porta da cozinha.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
Este conto continua com outra
receita.