(Não,
não diga nada! Deixe que o tempo decifre os sentimentos e os
coadune às palavras.) Era assim que a razão falava à
emoção, enquanto Isabel, com os olhos ameaçados
pelas lágrimas contidas e o coração comprimido
na dor que se alvoroçava, olhou fixamente o seu filho tentado
desvendar em sua alma os segredos que o levavam a tais atitudes, e lhe
dirigiu um complacente sorriso.
A passos lentos, cadenciados pela serena, mas dolorida, melodia que
adormece os acordes marcadamente cortantes compostos pelas notas da
surpresa, Isabel dirigi-se à cozinha, onde o seu mundo se transforma,
colorido pelos nuances do paladar, dando vida e matiz ao que antes parecia
desbotar.
Prepara 4 alcachofras, retirando a parte espinhosa superior, suas folhas,
e a haste, (que é cortada bem rente à flor). Lava-as e
coloca-as numa panela com água fervente e uma pitada de sal,
durante aproximadamente meia hora.
A lembrança fotografada em sua mente, do olhar impiedosa e dilaceradamente
enraivecido do seu filho, enquanto lhe dizia, em voz baixa e firme,
que não gostava dela, apenas a tolerava, insistia em espreitar
por entre os pensamentos que se automatizam como auto-defesa, e generosamente
aliviam os momentos de tristeza. André, de apenas 15 anos, tinha
como característica marcante uma integridade de princípios,
que por se diferenciarem dos conceitos padronizados, faziam dele uma
pessoa encantadora e misteriosamente especial. Mais do que introvertido,
totalmente fechado em seu mundo particular, embora sempre estivesse
atento e preocupado com tudo o que acontecia à sua volta, mesmo
que fosse do outro lado do planeta, amadurecera intelectualmente numa
velocidade acima do normal, mas o seu desenvolvimento emocional ainda
gatinhava.
Isabel colocou para cozinhar, numa panela com água fervente,
um fio de óleo e uma pitada de sal, 4 xícaras de penne,
(macarrão em forma de canudo).Reservou duas xícaras da
água onde cozinhara as alcachofras. Retirou o fundo destas, cortou-o
em tiras, e refogou-os em ¼ de xícara de azeite de oliva,
com 2 dentes de alho, moídos.
Arrumara a mesa com lugar para duas pessoas, com a sublime dedicação
de quem recebe um convidado especial, e colocara para gelar, uma garrafa
de vinho branco seco. (André adorava certas sutilezas de requinte,
além de, uma vez ou outra, pedir-lhe que acompanhasse a refeição
com vinho).
Acrescentou às alcachofras 1 xícara de tomates secos,
e refogou por mais dois minutos. Juntou meia xícara de vinho
branco seco, deixando ferver, para que o aroma do vinho se incorporasse.
Despejou na panela uma xícara de creme de leite industrializado,
mexeu, e retirou do fogo. Escorreu o penne, (ao dente), espalhou-o num
prato redondo grande, de porcelana branca, e cobriu-o generosamente
com o molho, polvilhando em seguida com salsa picada.
Com o coração ainda ferido, mas sem mágoa, fitou
o seu filho, através da névoa de calor que emergia do
prato colocado no centro da mesa, da qual transpirava um aroma convidativo,
e sem que este, de alguma forma se esquivasse, disse-lhe com toda a
ternura de um amor incondicional:
_ “Eu sei que você gosta de mim, apenas ainda não
sabe disso!”
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)