Abro
o dicionário e leio: Felicidade – estado de perfeita satisfação
intima.
Tênue ou eufórica, fugaz ou duradoura, ela parece-me tão
simples, que fica difícil acreditar que alguém jamais
a tenha experimentado. Com certeza os fatores que provocam este estado
são extremamente variáveis, assim como a leitura dos códigos
que a decifram, porque ela é pessoal, individual, e embora contagiante
, intransferível.
Para mim, felicidade é a própria estampada no rosto dos
meus filhos, o abraço do meu marido quando chega em casa, acordar
no meio da noite e sentir a sua respiração numa cumplicidade
que é só nossa, o beijo molhado e espontâneo da
minha filha de dois anos, abrir a janela do quarto e despertar com o
dia, embalada pela saudação dos pássaros, enquanto
o sol acaricia o meu rosto e me aquece a alma. A felicidade pode estar
nas ruas, no sorriso de alguém que apenas olhou para mim, e em
seguida se perde em meio à multidão. Soube de um mendigo,
cuja vida é preenchida por fome, frio, ausência de perspectivas,
olhares piedosos mas passivos, ou ativos em sua descriminação,
que a felicidade chega todas as noites com a presença do cachorro
que lhe aquece o corpo e alegra o espírito.
Para alguns, felicidade é saldo bancário positivo, para
outros, é amor correspondido. Para alguns a felicidade passa
desapercebida, envolta num emaranhado de contratempos, perdas, desilusões,
mas a própria ilusão já foi felicidade. Para outros,
ela impera, e ainda que fugaz, o seu registro permanece como mediador
dos momentos mais difíceis.
É envolta em felicidade que mergulho no ritual de preparação
daquilo que alimenta o corpo, ou que adorno com gestos e palavras a
manifestação do que alimenta a alma.
Bato no liquidificador 4 xícaras de leite, 1 colher (de sobremesa)
de açúcar, uma pitada de sal, 2 xícaras de farinha,
1 colher (de sobremesa) de fermento em pó, 3 colheres (de sopa)
de óleo. Unto uma frigideira pequena, anti-aderente, com um fio
de óleo, e forro-a com uma fina camada da massa, girando-a lentamente
para que toda a sua área seja preenchida. Espero um minuto para
que a massa cozinhe, solto-a delicadamente com uma espátula,
viro-a e deixo que cozinhe do outro lado, durante mais um minuto. Repito
a mesma operação com o resto da massa, e reservo as panquecas
empilhadas num prato.
Está completando um ano que nos mudamos para a nova casa, e que
começamos a trilhar novos caminhos, na direção
de metas que traçamos juntos. Os obstáculos são
muitos, e às vezes parecem-nos tão difíceis de
transpor, que no limite de nossas forças já tão
enfraquecidas, e de esperanças obscurecidas pelo teor das dificuldades,
tangenciamos a perspectiva da desistência. Mas ao fazermos a somatória
do que já conquistamos, obtemos como resultado um caminho menor
a ser percorrido. Então, respiramos fundo, inspiramos toda a
energia e perseverança latente à vida que pulsa em nós,
e encaramos com nova determinação as batalhas que iremos
vencer, mais, ou menos desgastados, mas conscientes de que esse vigor
apenas precisa ser renovado.
Refogo em duas colheres (de sopa) de azeite de oliva, meia cebola e
dois dentes de alho moídos, e 300g de carne moída (magra).
Junto 1 ½ xícara de abacaxi picado, 1 xícara de
suco de abacaxi, 2 colheres (de sopa) de vinagre, 2 colheres (de sopa)
de açúcar, e ½ xícara de catchup. Deixo
ferver. Acrescento a colheres (de sopa) de amido de milho diluído
em um pouco de água, enquanto mexo para não criar pelotas.
Em outra panela, refogo ligeiramente em duas colheres (de sopa) de manteiga
(com sal), 1 xícara de nozes picadas. Acrescento 1 colher (de
sopa) de mel, e 1 xícara de suco de abacaxi. Deixo ferver durante
dois minutos.
Sobre as panquecas abertas, disponho uma linha grossa da carne, (mais
ou menos da largura de dois dedos), e enrolo-as em forma de cilindro.
Coloco-as lado a lado numa forma refratária retangular, cujo
fundo forrei com um pouco do molho de nozes. Rego as panquecas com o
resto do molho, e levo-as ao forno pré-aquecido por aproximadamente
meia hora. Enquanto isso, preparo um arroz branco para acompanhá-las.
Procuro envolver quase tudo o que faço num clima de ritual, para
que possa saborear os momentos em toda a sua plenitude, pois eles são
únicos, intransferíveis, e preparar as refeições
da minha família, por mais que pareça enquadrar-se numa
rotina, é um dos processos onde a dedicação e a
absoluta satisfação estão impregnadas, contagiando
cada nuance do sabor, compondo todo um contexto a que chamo de “felicidade”.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)