Carmela ajusta a touca branca que lhe serve de moldura ao rosto de expressão amistosa, onde se realçam duas coradas e encorpadas bochechas. Nos olhos limpidamente verdes, o prazer em servir aos outros com aquilo que melhor sabe fazer, debruçando a alma e elevando a criatividade na mais perfeita composição de aromas e sabores.
Observa as mesas harmoniosamente espalhadas pelo jardim, onde os convidados desfiam assuntos banais, ou se entregam à mais elaborada exposição de conceitos e idéias, entre um gole ou uma garfada, enquanto esperam para confirmar os tão exaltados elogios que deram fama ao prato principal.
Num pequeno quiosque, a um canto do imenso e verdejante gramado, rodeado por canteiros de margaridas, improvisara-se a cozinha, ali, exposta à suave brisa do dia primaveril, para que qualquer um pudesse ter acesso à primazia com que era elaborada a refeição, e para que o ar se impregnasse totalmente do perfume que os alimentos iam desprendendo, abrindo o apetite e seduzindo o paladar.
A panela própria para paella é colocada sobre a enorme boca do fogão a lenha e regada com duas xícaras de azeite de oliva. Ao contato do calor que percorre todo o metal, um intenso e agradável odor se expande, fazendo com que, por breves segundos, o murmurinho das conversas cesse, e o silencio do olfato mergulhe no prazer. Quatro cebolas grandes, picadas, conduzidas de um lado para o outro pela colher de pau, passeiam no verde oliva até adquirirem uma coloração levemente dourada, e então, a elas se juntam seis dentes de alho, finamente picados. Um minuto depois, joga-se 1kg de lombo de porco, cortado em rodelas finas, e 1kg de sobre-coxas desossadas. Delicadamente, também sob o comando da colher de pau, a carne vai sendo virada, até que doure por igual.
Freqüente e insistentemente, o pequeno quiosque, passa a ser alvo de olhares ansiosos, curiosos, daqueles cuja alma começa a se render ao pecado da gula, que então não é mais pecado, mas sim o maravilhoso despertar de todos os sentidos.
O agreste dos quatro pimentões verdes (sem pele e sem semente), cortados em tiras, rasga o ar e se acomoda com precisão em meio aos outros cheiros. Por cinco minutos, no liquido que se solta dos outros ingredientes, os pimentões vão amolecendo, até que recebem a companhia de seis tomates picados, (sem pele e sem semente). Mais dois minutos, em que se desenrola um balé de cores por toda a superfície da panela, e é chegada a hora em que se permite aos frutos do mar do mar, exalar toda a inebriante maresia. Primeiro vão as lulas, (1kg) finamente cortadas em rodelas, porque exigem mais tempo de cozimento, (cerca de 5 minutos), depois os mexilhões, (também 1kg), e por último, 1kg de camarões grandes (sem cabeça e sem casca). Junta-se dois saches de açafrão e três litros de água fervente.Tempera-se apenas com sal, para que não se mascare o mínimo nuance de sabor de cada ingrediente. Espera-se até que a água ferva novamente, para depois despejar sobre ela 3kg de penne, misturando-o aos outros ingredientes com suaves movimentos circulares, por dois minutos aproximadamente. Por fim, cada alimento que compõe esta maravilhosa performance, irá descansar no leito de água borbulhante, até que esta seque quase completamente, ao calor sereno das brasas, enquanto um sublime diálogo de aromas solta fumegantes brados.
Carmela, orgulhosa de sua obra, avisa a ajudante que pode começar a servir os convidados, e descansa da exaustão do empenho, buscando entre as mesas, com o olhar atento e o coração ansioso, reconhecer o rosto do filho que gerara em seu ventre, mas que as circunstâncias implacáveis do destino, fizeram com que chamasse de mãe, outra mulher.
Sem que desse conta, uma criança aproximara-se, e estendia-lhe um parto com a colorida paella, indagando em sua doce ingenuidade por quê apenas ela não estava comendo. Após baixar os olhos, e apenas sorrir, ao levantá-los, segura no peito a explosiva emoção diante dos traços que reconhece. O menino que virara homem, segura a criança pela mão, e puxando-a, afasta-se, deixando para trás os olhos verdes, mergulhados em lágrimas de límpido contentamento, e alma do incondicional amor materno, inundada de gratidão.
Carmela ajusta a touca branca que lhe serve de moldura ao rosto de expressão serena, onde se realça um tímido sorriso de plena felicidade.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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° Lombo de porco
° Lula
° Mexilhão
° Pimentão verde
° Sobre-coxa desossada
° Tomate

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