As
melodias de Natal que embalavam e contagiavam o coração
de todos, convidando a um coro disperso, foram abafadas pelo som da
batedeira, onde as gemas de uma dúzia de ovos, e 16 colheres
(de sopa) se transformavam num creme homogêneo esbranquiçado.
No tumulto da mistura de sons, o choro de Carolina só foi percebido
alguns instantes depois, quando me deparei com ela encolhida a um canto
da cozinha. Sua expressão traduzia omais profundo desapontamento,
e o olhar suplicante, mergulhado em lágrimas, parecia pedir-me
respostas que aliviassem tamanha frustração.
“Porquê você está chorando, meu amor?”
“Porque o Papai Noel não vai trazer presente para mim!”
“Claro que vai! Porque não traria?”
“Foi o Fernando que disse.”
“Ele disse porquê?”
“Porque eu faço xixi na cama.”
“Oh meu amor, o Fernando está enganado. O Papai Noel gosta
de todas as crianças.”
“Então porquê algumas não ganham presentes?”
“Porque algumas não se comportam direito, e deixam coisas
ruins ficarem dentro do seu coração.”
“Mas eu não sabia que tinha coisas ruins no meu coração!”
“Você? Porquê você acha que tinha coisas ruins
no coração?”
“Porque ele nunca trouxe presente para mim!”
Existem momentos em que todas as respostas antes padronizadas e conceituadas
como certas se perdem diante da lógica, muito mais quando esta
lógica parte de um raciocínio simplificado pela mente
de uma criança. E ali estava eu, pega pela surpresa da coerência
não prevista, buscando na razão uma verdade que suportasse
a fantasia. Mas como explicar para Carolina que certas circunstâncias
são impregnadas pela amarga crueldade da vida, em que a justiça
dos direitos não se faz presente, e sua ausência sequer
se justifica? Como dizer para Carolina abandonar as fantasias que começavam
a criar raízes no seu mundo de criança, pular este estágio
da sua vida, e colocar os pés no chão de um patamar onde
o ser humano precisa deparar-se com a frieza das respostas embasadas
na racionalidade?
Enquanto derretia em banho-maria 4 colheres (de sopa) de manteiga, com
400g de chocolate amargo, tentei, mais do que pensar, sentir como criança,
e procurei em meu peito um argumento que pudesse devolver a esperança
de um presente de Natal. Juntei o chocolate derretido ao creme das gemas
com açúcar, e bati até que os ingredientes estivem
bem misturados, acrescentando 1 colher (de sopa) de canela em pó.
Reservei o creme, para substituir o seu lugar na batedeira pelas claras
de 1 dúzia de ovos, até que estas ficassem firmes.
“Você não vai me responder?”
“É que são muitas crianças, e o Papai Noel,
muito ocupado, acabava não conseguindo entregar presentes para
todas. Mas agora ele arrumou uma porção de duendes para
ajudá-lo, para que nenhuma fique sem presentes.”
“Então, agora todas as crianças boas vão
receber presente?”
Mais uma vez a boa mentira se justifica, para alimentar os sonhos infantis.
“Com certeza, meu amor.”
“Então eu vou ganhar presente.”
“Você não precisa ficar triste, que o seu presente
vai chegar.”
Num sorriso aberto, Carolina denuncia a alegria revigorada e a esperança
recuperada, enquanto imprime aos passos a ansiosa euforia em contar
a todos a boa notícia.
Junto ao creme de chocolate 2 xícaras de creme de leite industrializado,
e acrescento as claras batidas em neve, envolvendo-as delicadamente.
Levo à geladeira por duas horas.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
Este
conto continua em outra receita.