A campainha
soa como uma lâmina que corta o meu estômago, as pernas
tremem, e parece ter decorrido um século até que a empregada
venha abrir a porta. Vislumbro atrás de si uma cabeça
loira, e uma senhora aproxima-se a passos lentos. Aparentando ser mais
jovem e menos ameaçadora do que eu imaginara, de traços
e estatura delicados, ela está ali a poucos centímetros
de mim. Aproxima-se e dá-me dois beijos, exala um perfume suave
misturado à tênue fragância de um creme de tratamento,
a sua pele é fresca e macia, tão serena quanto a sua voz
que me convida a entrar, e pegando na minha mão, encaminha-me
até à cozinha.
Dada a proximidade da hora de almoço, resolvera ela mesma preparar
uma refeição rápida para que pudéssemos
conversar de uma forma mais descontraída. A informalidade com
que conduz o nosso primeiro encontro se constitui em fator surpresa,
e aprisiona as palavras, apenas me permitindo esboçar tímidos
sorrisos, enquanto a observo pegando um pacote de fetuccini (macarrão
de tiras longas e achatadas), e jogá-lo numa panela com água
fervente à qual acrescentou um fio de óleo e uma pitada
de sal.
Enquanto este cozinha, separa meia xícara de azeitonas verdes
picadas, meia xícara de amendoim sem casca, meia xícara
de mangas cortadas em tiras, meia xícara de uvas das quais foram
retiradas as sementes e cortadas ao meio, meia xícara de abacaxi
cortado em cubinhos. O assunto que discorre é banal, sem grandes
pretensões filosóficas, faz perguntas sobre mim, e sem
esperar ser inquirida, me responde sobre ela. De repente pára,
e me olha, querendo descobrir na minha expressão como estão
indo as coisas entre nós. Começo a me encantar com esta
mulher de palavras soltas e olhar terno, que brinda à vida em
cada gesto, executando com primor e prazer todos os passos daquilo que
prepara.
Coloca numa panela uma colher (de sopa) de manteiga e um pouco de alho
e cebola, moídos, acrescenta todos os ingredientes previamente
selecionados, deixa-os refogar por mais ou menos três minutos,
mexendo sempre para que não grudem no fundo da panela, rega-os
com meia xícara de vinho branco seco, espera mais dois minutos,
e acresce uma xícara de leite. Aproxima o rosto da onda de calor
que emerge da panela e invade o ar, e exala-o, numa expressão
de satisfação pelo resultado. Envolta no clima do ritual,
e contagiada pelo espírito que desperta todos os sentidos, manifestei
a minha cumplicidade inspirando o aroma que preliba o sabor.
Quando o leite começa a ferver, adiciona ao conteúdo da
panela uma xícara de creme de leite, mexe por dois minutos e
desliga o fogo. Está na hora de escorrer o macarrão. Coloca-o
numa travessa funda, de porcelana branca, cobre-o generosamente com
o creme colorido pelas frutas, e enfeita-o com pequenos galhos de manjericão.
Sentamo-nos à mesa, numa acolhedora salinha de almoço
premiada pelo bom gosto na decoração, sem qualquer presença
de desalinho. As taças de pé alto, num degradé
de azul, são preenchidas por um vinho tinto na temperatura ambiente,
e em seguida erguidas a um brinde, que soa como promessa na voz terna
e segura da minha futura sogra:
_ Ao começo de uma grande amizade!
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)