(Esta página é dedicada àqueles que, além de apaixonados pelo lúdico ritual de colocar a alma e as mãos nas panelas, simplesmente copiando receitas, ou exacerbando sua criatividade na composição de novos pratos, têm um relevante interesse pela história da gastronomia, e por aqueles que a fizeram ou a fazem nos dias de hoje.)

O alimento sempre se estabeleceu como premissa maior para a manutenção da vida, seja qual for o contexto a que esta se refira, e por isso engloba inumeráveis suprimentos, desde o mais abstrato e impalpável alimento da alma, a elaborada composição química que integra a atmosfera, a indução de energias para suprir mecanismos do avanço tecnológico, até àquilo que prevalece como latente à sobrevivência do animal, o alimento no seu sentido mais básico, aquele que percorre nosso aparelho digestivo.
A principio acionado apenas pelo instinto em garantir sua sobrevivência, o homem resgatava da natureza as suas “refeições”, e consumia tais elementos “in natura”. Com a descoberta do fogo, passou a cozinhar o que caçava, sem qualquer alteração no que se referia ao mundo vegetal. Percebeu a relevante diferença que existia entre o alimento cru e o cozido, com relação ao sabor, e até mesmo ao processo digestivo, no entanto, o paladar ainda se mantinha primitivo, preso ao escasso conhecimento e exigência.
Ao longo do tempo, não só foi descobrindo o prazer na diversidade dos sabores, e a obtê-la através de combinações variadas, como também, a fazer da própria refeição um ritual a ser compartilhado, a principio apenas entre os familiares ou aqueles que faziam parte intrínseca de seu dia a dia, mas a partir do segundo milênio antes de Cristo, para algumas civilizações, partilhar comida e vinho, passou a ter também um papel social.
Ainda hoje, o alimento, vem servindo de protagonista, tanto em discretos jantares, coquetéis imprimidos de etiqueta ou suntuosos banquetes, numa conotação hierárquica, onde jogos de manipulação social, política ou profissional, ou a tentativa de agregação, estão presentes na grande maioria das vezes. Embora para aqueles que fizeram da gastronomia uma paixão, e a desfrutam com intenso prazer, seja permitindo-se apenas à degustação, ou dedicando-se à elaboração dos pratos, a gastronomia venha se delineando na exacerbação do prazer, sem qualquer compromisso ou anseio de poder, e dessa forma, se tornando cada vez mais acessível a todos aqueles que estão aprendendo ou já a entendem como arte.
Os primeiros banquetes com sofisticada etiqueta, eram produzidos na mesopotâmia, por seus monarcas, onde embalados pelo espetáculo musical, circense e até mesmo teatral, os convidados embebedavam-se com bons vinhos, e saciavam seu apetite com carnes cozidas e grelhadas, servidas em fatias de pão, e terminavam a refeição com sobremesas de frutas adoçadas com mel.
A Grécia, por sua vez, profundamente influenciada por estas civilizações, ainda na antiguidade, acabou desenvolvendo uma rica cultura culinária, que mais tarde, viria também a contagiar Roma.
A cozinha grega, embora baseada em alimentos que vinham do mar, teve no vinho e no azeite os produtos básicos para a evolução de sua gastronomia. Ateneu foi o responsável pela primeira obra escrita que nos dá uma idéia na evolução culinária na Grécia, onde em meio a relatos de banquetes, incorpora conversas sobre gastronomia, e passagens de Arquestrato, nascido na Sicília, o mais antigo autor de relatos sobre comida, de que se tem conhecimento. (nos séculos III e IV, os cozinheiros que incrementavam a arte culinária da Grécia, vinham da Sicília).
No século XIII começam a aparecer os primeiros livros de receitas, embora Lê Ménagier, (1393) tenha apresentado suas receitas em meio a discursos de administração doméstica, e a maioria destas, (que incluíam sopas, assados, patês, ovos e molhos), tenha sido tirada do Viandier.
A partir de Chiquart, cozinheiro da corte européia por 25 anos, o primeiro a descrever a culinária como arte e ciência, espírito este incorporado em seu livro Du Fait de Cuisine, este setor vem desenvolvendo sua técnica e criatividade, através dos talentosos mestres que se seguiram, até aos dias de hoje, com uma maior valorização da gastronomia, através de incansáveis pesquisas, e a implantação de escolas dedicadas a formar novos gourmets.

 

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