Dire
Strates embalava o ambiente com a melodia de Going Home, enquanto Carolina
enrolava o cabelo, e um prendia num coque. Exalando sensualidade em
cada gesto, passeou as mãos pelo colo até tocar o contorno
dos seios, e ajeitou o decote da blusa branca que os sugeria através
da sutil transparência. Passou a língua nos lábios
bem desenhados, cantarolou alguns versos enquanto fechava os olhos e
se impregnava dos acordes primorosos, e colocou o avental. O coração,
pulsando de ansiedade fibra por fibra, coreografava a dança das
paixões contidas que se extravasam em piruetas de esperança.
Como quem esculpe uma obra de arte, com o olhar fixo no objeto, e o
espírito solto em devaneios de criação, cortou
um abacaxi ao meio, no sentido horizontal, conservando a sua coroa.
Cuidadosamente, para não ferir a casca, retirou toda a polpa,
(a qual cortou em cubinhos), e reservou. Disfarçando para si
mesma o olhar ansioso que conferia a todo o instante o movimento dos
ponteiros do relógio, colocou duas colheres (de sopa) de azeite
de oliva numa panela, e refogou dois peitos de frango cortados em pequenos
quadrados, com uma cebola e dois dentes de alho, bem picados. Encheu
um cálice de vinho branco seco, e sorveu a metade, embebedando
a alma, de expectativas. A outra metade despejou sobre o frango, deixando
ferver até que a sua fragrância o impregnasse.
Sorriu, a principio intimamente, e ao final, na progressão do
contentamento, deixando que ele se denunciasse na boca que se alargava
timidamente, e no olhar transbordante de brilho. Fosse qual fosse o
desfecho deste encontro tão minuciosamente elaborado, os momentos
que o antecediam já valiam por todo o ritual em que se embrenhavam.
Acrescentou uma xícara de abacaxi picado, uma xícara de
creme de leite industrializado, e sal a gosto. Deixou ferver um pouco,
dividiu o preparado em duas porções, e colocou-o nas metades
de abacaxi, levando ao forno pré-aquecido, para gratinar, por
mais ou menos 20 minutos. Tirou o avental.
Colocou lenha na lareira, e imprimiu a esta a cumplicidade do calor
que crepitava em cada célula do seu corpo latejante de desejo.Colocou
sobre a mesa redonda um a toalha de renda, mostarda. Compôs dois
lugares com pratos sextavados, de porcelana branca, talheres, taças
de vidro em degrade mostarda, para água e vinho, e guardanapos
de linho, brancos. No centro, num recipiente fundo, mas baixo, de vidro
transparente, e com água até à metade, velas amarelas
com o formato de margaridas, se sustentavam na superfície. Trocou
a música pelo instrumental de Andreas Valdeweiner. Soltou os
cabelos, ajeitou-os desalinhadamente correndo os dedos por entre eles,
separou vagarosamente uma mecha e levou-a ao rosto inalando o perfume
discretamente sensual que o envolvia.
Estremecida pelo som do motor, correu para a porta com passos serenos
e coração em sobressalto. Desarrumou o decote e domesticou
a inquietude. Tentou sequer contemplá-lo, mas acabou devorando
com o olhar, a figura viril do homem que se aproximava numa ansiedade
recíproca, cujo único indício do ano que se passara
deixava-se perceber no grisalho das temperas. Atropelaram os minutos
com gestos e frases que tentam ocultar os anseios da alma e do corpo,
à procura do momento certo para serem desvendados.
Na penumbra do ambiente, desvanecida apenas pelas chamas, ardorosas
da lareira, e tímidas, das velas sobre a mesa, respiravam e inspiravam
a implacabilidade de uma paixão que resistira ao tempo e à
distância. O frango no abacaxi, o qual Carolina polvilhara com
salsa picada e lascas de amêndoas torradas, contornando todo o
perímetro da casca com uma fina camada de batata palha, fora
saboreado com elogios nostálgicos.
Um choro de bebe cortou o silêncio do choro das peles que clamam
por devaneios de carícias. Carolina levantou-se, e tremulamente
pegou-lhe na mão, puxando-o em direção ao quarto.
Tentando decifrar a história contida no ano que se passara, ele
observa a criança que é tirada do berço e aninhada
contra do peito daquela mulher que imprime ao momento uma aura de sensualidade
materna. Entre contemplação, surpresa e constrangimento,
transborda a primeira, sugere a segunda e camufla a terceira. (Com certeza
existira outro... Quem? Quando? Quanto haviam se envolvido? O que fazer
com as suas esperanças? Como desistir? Tantas perguntas, e tanto
medo das respostas). No limite da tolerância do tremor que cavalgava
em suas veias e lhe amortecia o coração, dispô-se
a um adeus:
_ Bem, você vai estar ocupada e não quero atrapalhar...
Os dedos da mão suave que segurava com ternura a cabeça
do bebe, se deslocam, num gesto que traduz o pedido de que não
vá, e permitem que a história comece a ser desvendada,
enquanto a alma grita em desatino: ( A marca!!! A mesma marca de nascença!!!)
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)