Sérgio
aproximou-se devagar, passou os braços em torno da sua cintura,
puxou-a para si, curvou o pescoço, beijou-lhe a nuca, a orelha,
o rosto, a boca, a alma. Já a beijara por inteiro, minutos antes,
quando, parado na porta da cozinha, a contemplara exaltado pela paixão.
Aquela era a mulher da sua vida, que lhe despertara sentimentos até
então desconhecidos, que o levara a reavaliar conceitos, que
o ensinara a adquirir comportamentos antes ausentes, que o fizera sonhar
novos sonhos e desistir ou adiar os velhos, que preenchia a sua vida
com um misto de serenidade e turbulência. Seu espírito
sorria ao vê-la sorrir, porque ela desenhava nos lábios
e coloria com o olhar, a terna alegria do instante. Devorava a mulher,
e degustava a menina. Com a primeira se embebedava, com a segunda se
refrescava. Gostava do som da sua voz, e das palavras que a preenchiam.
Encantara-se com a constância dos bilhetes transbordantes de paixão,
acostumara-se a esta continua declaração de amor, e fingia
para si mesmo que não se importava com a ausência destes
nos últimos tempos, usando a tão exercitada e latente
razão, para justificá-la com a falta de tempo e classificá-la
como temporária. Sentia-se impotente perante as suas carências,
insuficiente sob as solicitações, oprimido com as reclamações,
e revoltado pelas acusações. Mesmo assim, de tanto, e
por tanto amor, continuava tentando, na medida em que o desequilíbrio,
entre razão e emoção, lhe permitiam.
Catarina
sentiu os braços dele envolverem-lhe a cintura. Seu corpo se
deixou levar de encontro ao dele. Estremeceu com o beijo na nuca, na
orelha, no rosto, até sua boca se entregar com paixão.
Viu-o afastar-se em direção ao quintal, e contemplou-o,
com a alma repleta de sonhos, sonhos sonhados, realizados, esquecidos,
destruídos. Alguns compartilhados, outros, incompreendidos. Aquele
era o homem da sua vida, que despira a mulher, para cobri-la de prazer,
e despertara a menina, para adormecê-la em seus braços.
Por instantes, detinha-se a percorrer os traços marcantes que
lhe desenhavam o rosto, ou se deixava envolver por toda a sensualidade
que transbordava das mãos esguias e firmes. Acolhia-se no som
da sua voz, mesmo que nela imperasse a razão, e a emoção
surgisse rara e sutilmente. Ansiava por bilhetes que se embrenhavam
na falta de tempo e inspiração, mas tinha essa expectativa
recompensada em gestos de carinho e dedicação, e aprendera
a conformar-se com a falta de reciprocidade na exaltação
dos sentimentos. Suas carências, insatisfeitas, adormeciam na
sala de espera, em algum lugar do coração. As suplicas
perderam o sentido por não serem atendidas, as reclamações
apenas emergiam no calor da discussão, e faziam florescer as
acusações. Assim, na tentativa de achar um equilibro entre
a emoção de um e a razão de outro, fazia de tanto
e com tanto amor, um motivo para sobreviver aos desencontros.
Catarina corta 6 fatias de pão de forma em cubinhos, e leva-os
ao forno, numa assadeira, para que fiquem levemente torrados. Pica uma
xícara de azeitonas pretas, sem caroço. Junta uma xícara
de pedacinhos de bacon frito, duas xícaras de abacaxi em cubinhos,
uma xícara de uva passa sem semente, e uma xícara de amêndoas
torradas e picadas. Retira os croutons do forno, deixa esfriar, e junta-os
à mistura.
A campainha toca, as pessoas entram, e o churrasco se perde nas bocas,
ao encontro do paladar. Sônia esbanja beleza e frescor matinal,
anda como se passeasse nos campos da primavera, sorri para todos, e
todos sorriem com ela. Sérgio a abraça, e ela quase desaparece
por entre seus braços. Os beijos não terminam, os olhares
se multiplicam. Catarina sente as pernas tremerem e o coração
se contorcer de desconforto, mas busca na razão do marido, a
razão para a exacerbação de tanto calor, e justifica-a
como surpresa e retribuição, classifica-a de cortesia
e falta de reação. Ainda não restabelecida do desconforto
anterior, percebe-a recebendo das mãos dele, um pedaço
de papel que coloca no decote, enquanto trocam olhares de cumplicidade.
As lágrimas queimam-lhe o rosto, e gelam-lhe a alma. Sobe as
escadas, coloca aleatoriamente algumas roupas numa mala, pega uma folha
de papel, onde sussurra tremulamente: “Não suportei! Você
sabe o quê!”. Desce as escadas, empurrada pela dor, e sai
disfarçadamente, sem avisar.
Quando chega em casa, Sônia tira do decote um pedaço de
papel. Encontra naqueles números a esperança de um reencontro
com Luis, encosta o papel contra o peito, sorri e pega o telefone.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)