Cozinha
é reflexão
Diretor
da prestigiada Ècole Lenôtre, o chef francês proclama
o fim da ostentação nos restaurantes.
Daniela
Pinheiro
O
Chef francês Philippe Gobet é diretor da escola de gastronomia
Lenôtre, nos arredores de Paris, uma das mais respeitadas do mundo.Ali,
a cada ano, centenas de jovens de todas as nacionalidades disputam acirradamente
as vagas para o curso de chef de cozinha (87.500 reais por seis meses
de aula). Aos 45 anos, membro da Academia Culinária da França,
casado com uma brasileira, sua ex-aluna, ele já foi considerado
o “melhor profissional de cozinha da França”. Autor
de livros de receita de grande sucesso, Gobet tem uma visão realista
sobre o futuro da gastronomia mundial. Ferrenho defensor da centenária
tradição gastronômica de seu país, ele diz
acreditar que a “onda espanhola” e seu maior expoente, o
catalão Ferran Adrià, são apenas mais uma moda.
E que os restaurantes formais, com talheres de prata e cortinas de veludo,
estão com os dias contados. Convidado para participar de um festival
gastronômico no Brasil, ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
– Qual será a nova onda da gastronomia?
Gobet – Acho que o futuro vai ser uma coletânea
de tudo o que se fez até agora. Algo como o chef Joël Robuchon
está fazendo em seu bistrô em Paris: porções
aperitivos para todos provarem o prato do outro, cozinha aberta, influência
japonesa na apresentação dos pratos, as pessoas sentadas
em balcões para interagir, conversar bem de perto. O futuro é
a culinária francesa de qualidade, sem nenhuma formalidade e
de preço acessível.
Veja – Diz-se que a França parou no tempo.
Que se come lá como há vinte anos, enquanto a Espanha
se moveu,ficou mais criativa e hoje virou a Meca da gastronomia mundial.
O senhor concorda?
Gobet – A nova cozinha espanhola é uma
cozinha de provocação, e o catalão Ferran Adrià
é sua máxima celebridade. Ele é um gênio,
mas eu acho que a cozinha de Adrià é uma moda, e vai passar.
Assim como é impossível copiá-lo, é impossível
comer sua comida diariamente. Ninguém consegue degustar 25 pratos,
texturas, cores e sabores diversos em todas as refeições.
Quanto ao tão celebrado pendor de Adrià pela pesquisa,
trata-se de um comportamento absolutamente disseminado entre os grandes
chefs internacionais. Todos trabalham muito para proporcionar sabores
e sensações diferentes à mesa. Hoje, cozinha é
reflexão.
Veja – Vai ficar algo da cozinha de Adrià
nas receitas do dia-a-dia?
Gobet – Ainda é cedo para dizer, mas a
lição de que combinar matérias-primas em temperaturas
diversas proporciona sensações surpreendentes, talvez
fique. Estou pensando, por exemplo, nos “sorvetes quentes”
pesquisados por Adrià. Acho provável que sobrevivam técnicas
como a do sauté e a do gratinado, que são legados franceses
clássicos, absorvidos por cozinheiros do mundo todo há
quase um século.
Veja – Os restaurantes ultraformais, com talheres
de prata e contas salgadas, estão com os dias contados?
Gobet – Sempre vai haver algum espaço
para isso. As acredito que a maior parte dos restaurantes vai se adaptar
à nova onda informal. O mundo mudou, está menos solene.
E as pessoas estão mais preocupadas em pagar o justo por aquilo
que comeram. À medida que aprendem mais sobre a gastronomia e
vinhos – e esse é um conhecimento que está se disseminando
entre parcelas cada vez maiores da população – elas
percebem que o que conta é a qualidade do produto, e não
a embalagem. Isso é indiscutível. Você só
volta a um restaurante com prazer se você comeu bem ali. Voltar
pela decoração é só prazer social.
Veja – Mas a maioria dos restaurantes investe
muito em ambiente atualmente...
Gobet – Esses são os da moda, os que vêm
e vão. A decoração não pode ser o aspecto
mais relevante. Os chefs mais respeitados do planeta estão por
aí há anos, independentemente do ambiente de seus restaurantes.
Veja – À primeira vista, como o cliente
pode discernir o bom do mau restaurante?
Gobet – De imediato, não tem jeito. Tem
de entrar, comer e avaliar.Bons chefs, poucos. Mas há dicas.
Por exemplo, ver o passado do chef: com quem ele estudou, quem é
o seu guru.Isso faz diferença. Não é aquele garoto
que fez um ano de curso de cozinha e já se apresenta como chef.
Isso é absurdo. Um verdadeiro chef jamais se apresenta como tal.
São os outros que o proclamam.
Veja – O que o senhor acha de certas combinações
servidas atualmente? Como a de foie gras com ouriço-d-mar, por
exemplo?
Gobet – Com ouriço nunca provei, mas com
caviar fica uma delicia. Acho que na cozinha não deve haver limitações.
Sou a favor das ousadias. É claro que não dá para
cometer pecados como misturar azeite e creme em um molho. Isso não
é ousadia, é burrice.
Veja – É preciso desconfiar de chefs com
menos de 30 anos?
Gobet – Não, isso é exagero. Mas,
na École Lenôtre, 80% dos jovens que aparecem para fazer
o curso preenchem a ficha e, na profissão, escrevem “chef
de cozinha”. Isso me deixa revoltado. Há seis anos, na
minha primeira vez em São Paulo, conheci Alex Atala, que hoje
considero um excelente chef, e ele tinha uma atitude diferente. Ouvia
criticas, prestava atenção nos mais experientes, tinha
um esmero sem igual no trato com os ingredientes. Então, não
é a idade, é a atitude. Quem fala muito “eu isso”,
“eu aquilo”, em geral, merece desconfiança.
Veja – Os cozinheiros, agora chamados de “chefs”,
ficaram muito famosos.É possível continuar cozinhando
bem e ter tanto tempo para os holofotes?
Gobet – Os grandes chefs se tornaram, celebridades.
Dificilmente você vai encontrar um deles num dia normal, na cozinha
de seu restaurante, preparando um molho. Ele vai usar esse tempo em
marketing, em entrevistas, consultorias e viagens. Tudo bem. O essencial
é que ele nunca pare de refletir e pesquisar sobre culinária.
E que encontre uma equipe de confiança, que entenda o seu pensamento
e dê vida às criações.
Veja – Qual a chance de visitar o restaurante
de um chef três-estrelas do guia Michelin, tido como o melhor
do mundo, e comer algo feito por ele?
Gobet – A não ser que você seja
o presidente da República, para quem o chef faria a gentileza
de cozinhar algo, a possibilidade é bem pequena.
Veja – Ganha-se muito dinheiro trabalhando em
restaurantes estrelas?
Gobet – Volta e meia, revistas especializadas
publicam reportagens com o salário das grandes estrelas da culinária
francesa. São somas de milhões de euros. E os ajudantes
também são bem remunerados. Um chef pâtissier, por
exemplo, que trabalhe para um chef famoso, pode ganhar 10.000 euros
por mês. Ganha-se um bom dinheiro, sim. Mas trabalha-se muito
também.
Veja – Se a França ainda é o berço
da alta gastronomia, como explicar a escalada da rede McDonald’s
no país?
Gobet – É um reflexo do mundo atual. Ninguém
tem mais tempo para nada. Come-se em cinco minutos. Cabe aos chefs e
aos gastrônomos preservar a tradição e combater
isso.
Veja – E o que vocês estão fazendo?
Gobet – Há uma série de ações
em toda a França. Existe a Semana do Gosto, quando todos os restaurantes
oferecem 50% de desconto ao público. A idéia é
que estudantes que têm pouco dinheiro se familiarizem com a alta
gastronomia. Os jovens estão desaprendendo a comer. Em um hambúrguer
não há valores gustativos, que devem imperar em toda a
cozinha, como a combinação do salgado, do doce e do amargo,
por exemplo.
Veja – recentemente, o governo francês
endureceu as medidas contra quem dirige alcoolizado e a comunidade dos
gastrônomos se alvoroçou. Por quê?
Gobet – Para gastrônomos, a lei é
ruim. Os restaurantes temem perder muito, porque boa parte do lucro
vem das bebidas. O consumo de vinho já caiu pela metade em quarenta
anos. Com essa lei, deve despencar ainda mais. Os gastrônomos
andam preocupados porque a França sempre foi considerada uma
referência em enologia, mas muitos hábitos arraigados vêm
se perdendo. Há uma perda de identidade.
Veja – Quais hábitos se perderam?
Gobet – Há pouco tempo, ainda era raro
ver um grande restaurante servindo vinho em taça ou em jarrinhas.
Agora é quase regra. Consumir metade de uma garrafa e levar o
resto para casa é também algo absolutamente novo na França.
Veja – Alguns chefs escreveram livros sobre os
bastidores da cozinha. Em geral, eles descrevem o ambiente como impróprio
para mulheres, além de muito agressivo. È mito ou verdade?
Gobet – Quem escreve isso há muito não
deve freqüentar as cozinhas dos bons restaurantes.Acabou essa história
de chef histérico. Isso é passado. Antigamente, davam-se
broncas inflamadas, em alguém na frente dos demais. Tinha essa
humilhação. Mas hoje a cozinha está zen.
Veja – Qual o perfil do aluno que freqüenta
o curso para se tornar chef pela École Lenôtre?
Gobet – É muito variado. Em geral, gente
que tem dinheiro, já que o curso é caro. Temos 10% de
brasileiros, o que é um numero expressivo. Deste total, a maioria
quase absoluta é de mulheres. Os brasileiros sempre querem dar
um toque pessoal nas receitas. São o oposto dos japoneses. Esses
fotografam toda a aula, passo a passo,e reproduzem igualzinho ao que
fazemos. Já o pessoal do Oriente Médio é bem inventivo.
Eles adaptam todas as receitas ao tipo de culinária de onde vêm.
Veja – E os americanos?
Gobet – Uma vez, no primeiro dia de aula, antes
de dar bom-dia, uma garota americana me falou: “Espero que a gente
faça muitas sobremesas americanas”. Eu disse: “Que
sobremesa americana?” E ela me mostrou um álbum de fotos
com coisas banais, uns cheesecakes ordinários, com uns palitos
enormes de açúcar. Eu disse: “Desculpe, mas não
sei fazer isso”.
Eles são impermeáveis.
Veja – Dá para saber se algum aluno pode
vir a se tornar um grande chef?
Gobet – Sim. São detalhes mínimos.
O modo como ele corta o peixe, se usa a outra mão para segurar
a carne e servir de guia para a faca. É a postura, o jeito de
segurar o copo, de picar um legume. Depois de 25 anos no ramo, é
difícil se enganar.
Veja – O que o senhor achou dos restaurantes
que visitou no Brasil?
Gobet – Fui a quase todos os restaurantes famosos
de São Paulo. Gostei muito. A maioria tem uma influência
Fusion, que mistura ingredientes brasileiros com técnicas francesas.
Isso é muito interessante. Mas acho uma pena que a verdadeira
cozinha tradicional brasileira, a da feijoada, do vatapá, não
seja celebrada em restaurantes badalados.
Veja – O senhor é autor de livros de receitas
de sobremesas. Por que a maioria das receitas dos livros não
dá certo?
Gobet – O que se ouve por aí é
que alguns chefs não dão mesmo todos os segredos das receitas
em seus livros. Deve ser com medo da concorrência.Mas isso é
uma bobagem. Até porque seguir uma receita não é
algo estanque. Todo o mundo tem direito de inventar um pouco. As minhas
receitas funcionam, posso garantir.
Veja – O suicídio do chef Bernard Loiseau,
há quase dois anos, depois de ter perdido pontos no renomado
guia GaultMillau, chocou a França. O episódio afetou a
maneira dos chefs lidarem com a critica especializada?
Gobet – A morte de Bernard foi um episódio
muito triste. Mas é preciso esclarecer bem a situação.
Já havia sinais de certa depressão independentemente do
resultado do guia. A história tomou proporções
homéricas porque ficaram querendo culpar alguém ou alguma
coisa pelo ocorrido. Esse assunto tem de ser esquecido.É algo
que só diz respeito à família Loiseau.
Veja – Na hora de escolher um restaurante, as
pessoas podem confiar nos guias dos críticos?
Gobet – Os guias não são bíblias.
São relevantes porque apresentam o que existe em cada cidade.
Os críticos também são importantes porque, em geral,
experimentam muitos lugares, têm um certo padrão. Por mais
que façam criticas e denúncias sobre o Michelin, eu o
considero o melhor guia do mundo. Nele, a maioria dos restaurantes de
cotação máxima estão na França. O
que é uma avaliação muito correta.