Entrevista
concedida a Basilico em 2002
Basilico - Como é seu dia-a-dia no atelier?
Ferran Adrià - Diferente a cada dia. Aqui, nos
dedicamos basicamente a dar entrevistas e a cozinhar, ou melhor, investigar.
Chego às 9 da manhã e o único ritual diário
é consultar a agenda. Não temos ajudantes, somos apenas
3 criadores: meu irmão, Albert Adrià (diretor do El Taller
e chef-pâtissier), Oriol Castro (chef de cozinha) e eu. Às
vezes, convidamos alguém para compartilhar a experiência
de criar conosco, como Jordi Parra (importante chef espanhol, do restaurante
Espaisucre).
Basilico —- Como é seu processo de criação?
Adrià —- Primeiro buscamos uma idéia
no trabalho diário, em viagens ou livros. Depois, procuramos
desenvolvê-la. No atelier, nos preocupamos com idéias conceituais
e técnicas, coisa que não é tão fácil
quanto misturar ingredientes.
Quando ela funciona, montamos o prato. Mas não trabalhamos de
forma linear. Se tivéssemos o ano todo para criar seria mais
fácil.
Basilico —- Que critérios básicos
você segue para levar adiante uma idéia?
Adrià —- Basicamente 2: o contato físico
com a comida, ou seja, ela deve ser realmente gostosa. E ser conceitualmente
criativa, moderna. Eleger uma nova matéria-prima, por exemplo,
é simples: se for gostosa, é séria candidata. Não
é preciso ser um ingrediente exótico. Outro dia, experimentei
uma pêra ótima. Pensei: há quanto tempo não
crio nada com elas... Ou seja, a idéia surgiu porque a
pêra estava deliciosa!
Basilico —- Que resultado criativo mais surpreendeu
você?
Adrià —- As espumas. Foi uma revolução!
Daqui á 10 anos será a coisa mais natural do mundo, inclusive
para uso doméstico. Foi uma dessas idéias que as pessoas
consideram malucas, mas, neste momento, há milhares utilizando
o sifão como se usa o liquidificador.
Basilico —- Em que proporção se
combina sensibilidade, intuição e técnica em sua
concepção de cozinha?
Adrià —- Qualidade do produto e técnica
são obrigação de qualquer bom restaurante. Já
sensibilidade não é uma qualidade obrigatória.
Aliás, o que faz falta é sensibilidade e amor pelo que
se faz.
Basilico —- Que critérios você utiliza
na montagem do prato?
Adrià —- Apesar de ser a parte mais espontânea
do processo, há algumas regrinhas: não enfeitar com ervas
aromáticas sem ter porquê. Não abusar das apresentações
verticais e, logicamente, tudo o que vier no prato deve ser comestível.
Basilico —- Como se prepara o menu do El Bulli
a cada ano?
Adrià —- Intuitivamente. Não planejo
nada. Nosso sistema de trabalho mudou bastante. Antigamente, o restaurante
estava aberto o ano inteiro. Agora abrimos durante 6 meses, e somente
para o jantar, pois percebemos que estávamos fazendo muita criação
do tipo "Kleenex" —- para usar e jogar fora. Por outro
lado, se não fosse assim não teríamos desenvolvido
tantas idéias e, talvez, tivéssemos ficado só com
as espumas... Mas queremos aprofundar um pouco mais. Agora, cada menu
permanece em vigor por mais tempo, talvez por 2 anos...
Basilico —- Quando você percebeu que tinha
feito algo realmente novo?
Adrià —- Não sei se é realmente
novo, mas lembro-me de uma codorna em escabeche que decidimos desossar
para que não tivesse uma aparência tão feia... Isso
foi em 1986 e só 16 anos depois vi uma empresa comercializá-la
desta maneira.
Basilico —- Fale um pouco de seus livros...
Adrià —- Estes livros que estamos editando
serão como um catálogo de todo o meu trabalho. A idéia
é registrar minha evolução criativa na alta gastronomia
para que, daqui a 50 anos, discutam-se os resultados objetivamente.
Se algum dia tudo isto terminar, que fique a constatação
de que foram feitas coisas muito importantes. Acreditamos que, dentro
de 5 anos, quando os 3 livros estiverem prontos, muitos mudarão
a maneira de falar sobre cozinha. Frank O. Gehry fez o Guggenheim de
Bilbao, uma jóia da arquitetura, já com certa idade (e
rodeado de uma equipe jovem). Ser realmente criativo e abrir caminhos
não é nada fácil. A intenção sempre
existe, mas quando se avalia objetivamente o trabalho executado... Se
vou continuar no mesmo nível, não sei dizer.
Basilico —- Como você disse certa vez,
é uma pena que os cozinheiros não tenham um prêmio
Nobel...
Adrià —- Foi uma maneira de dizer que
a nós couberam as estrelas, e devemos lutar todo ano para não
perdê-las.
Basilico —- Conhece o Brasil? Pode citar alguns
pratos?
Adrià —- Estive no Rio 2 vezes. Lembro-me
de
ter comido frutas incríveis, e dos rodízios de carne,
como o Porcão. Ah! E a feijoada... É incrível que
eu não conheça 10 pratos da cozinha brasileira, mas isso
acontece com cozinheiros do mundo inteiro... Isso mostra que, por mais
que eu entenda de cozinha, continuo sem cultura gastronômica suficiente.
Basilico —- E você, quando vai a algum
restaurante?
Adrià —- Escolho os lugares. Mas sou uma
pessoa normal, minha opinião não serve para nada... Se
digo a alguém o que está ou não bem feito, é
subjetivo. É como entrar no mundo dos vinhos. Fazer uma carta
de vinhos? Pois que a prova seja às cegas, sem nada que possa
influenciar a escolha. Com a comida é igual. Além do mais,
existem os senhores críticos gastronômicos, que estão
aí pra isso...
Entrevista concedida à revista Época
ÉPOCA – Que tipo de experiência
o senhor está interessado em proporcionar às pessoas?
Ferrán Adrià – Quero que se divirtam,
porque o primeiro mandamento da gastronomia é fazer as pessoas
felizes. E, no caso de El Bulli, tem de ser por meio de algo realmente
novo.
ÉPOCA – Como será o cardápio
deste ano?
Adrià – A novidade é que não
haverá novidade, mas, sim, receitas representativas de 20 anos
de carreira. Mais que 25 pratos, serão 25 emoções.
Entre elas está a caipirinha sólida, que fica com a textura
de uma massa mil-folhas. Trata-se de um conceito que pode ser aplicado
a qualquer coisa que contenha álcool e açúcar,
como um mojito (drinque cubano feito com rum, limão, hortelã,
açúcar e água com gás).
ÉPOCA – O senhor já esteve no Brasil?
Carregou algo do país para seus pratos, além da caipirinha?
Adrià – Estive no Brasil duas vezes. Uma
delas, atendendo ao convite de um homem que queria presentear a mulher
com um jantar executado por mim. Achei o motivo lindo e aceitei. Não
era um milionário querendo se exibir. Na outra vez, fui para
o Carnaval. Confesso que não prestei atenção à
comida, porque estava mais interessado na festa. Mas me fascinou a cultura
ligada às frutas, sua ampla utilização em vários
tipos de receita.
ÉPOCA – Os livros que o senhor vai lançar
trarão receitas que os amadores poderão executar?
Adrià – É preciso derrubar o conceito
de que livros de culinária servem para cozinhar. Eles devem inspirar,
trazer uma filosofia, apresentar técnicas que as pessoas possam
adaptar. Ocorre o mesmo quando eu vejo uma roupa de Jean Paul Gaultier:
aprecio, mas não tento copiar.
ÉPOCA – O senhor leu o livro Kitchen Confidential,
que conta como restos de comida são reutilizados em restaurantes
grã-finos?
Adrià – As pessoas não deveriam
se impressionar tanto com essas histórias que o livro conta.
Sabemos que há bons e maus procedimentos e profissionais em qualquer
área.
ÉPOCA – O senhor tem crises criativas?
Adrià – Ser criativo é uma exigência
muito forte neste métier. Se durmo bem, geralmente não
tenho problemas para corresponder. No dia em que me cansar da pressão,
penduro o avental e vou passar férias no Brasil.
ÉPOCA – Existe algo que o senhor gostaria
muito de fazer e não consegue, um desafio gastronômico?
Adrià – Sorvete quente...
ÉPOCA – De que criações
se orgulha mais?
Adrià – Meu trabalho é mais sobre
técnicas que sobre pratos. As que eu considero marcantes são
duas: substituir a gelatina fria pela quente, em todos os tipos de prato,
e fazer espumas com o sifão, para deixar musses e cremes ainda
mais aerados.
ÉPOCA – O senhor se preocupa com que sua
comida seja saudável?
Adrià – A cozinha do dia-a-dia é
que tem de ser saudável. Meu restaurante é uma festa para
os sentidos. É como sexo: para ser desfrutado sem preocupação,
senão não se desfruta.
ÉPOCA – Há alguma tendência
gastronômica forte atualmente?
Adrià – Por um lado, a gastronomia interessa
cada vez mais às pessoas, até como hobby. Mas existe uma
necessidade econômica de que os chefs ofereçam alimentação
rápida, saudável e não muito cara no cotidiano.
Esse é um nicho. Outro é a festa, e nesse segmento é
preciso ser cada vez mais criativo, pois o público, não
apenas o de classe alta, está exigente. Assim como na arte, está
difícil surpreender as pessoas, porque elas estão muito
bem informadas.
ÉPOCA – Então, um chef criativo
vale mais que um chef que executa clássicos impecavelmente?
Adrià – Não dá mais para
ser só tradicional ou só criativo. A combinação
é que funciona.
ÉPOCA – Quanto é preciso estudar
para ser um bom chef?
Adrià – Para ser um cozinheiro, uns cinco
ou seis anos. Para ser um chef, talvez a pessoa morra e não chegue
lá. Tem muito de inato nisso.
ÉPOCA – Onde estão ocorrendo manifestações
criativas na gastronomia atualmente?
Adrià – A barreira entre o clássico,
o tradicional e o criativo é muito sutil. Eu, por exemplo, estou
encantado com o Japão. Recentemente, estive num dos melhores
bares de sushi do mundo, um lugar clássico. Mas havia muitas
coisas ali que eu não conhecia. Então, me pareceu bastante
criativo. Na Espanha, pela primeira vez, uma geração de
jovens chefs está se destacando. Há 20 anos, seria impensável
um jornalista brasileiro se interessar pela cozinha espanhola. A Itália
também está começando a se renovar.
ÉPOCA – A França continua sendo
a meca gastronômica mundial?
Adrià – Certamente. É pura bobagem
essa história de que a supremacia francesa acabou. Simplesmente
porque são 300 anos de tradição. Existe uma cultura
aí.
ÉPOCA – A tradição e o poder
de guias gastronômicos, como o Michelin e o Zagat, também
se justificam ainda hoje?
Adrià – Eles são fantásticos
quando se está neles, não tão fantásticos
para quem fica de fora. As pessoas hoje têm muita opção,
então precisam de referências. Quem quer estar nos guias
tem de jogar o jogo. O mundo da alta-cozinha, como o da alta-costura,
é muito difícil.
ÉPOCA – Faz parte do jogo ter fila de
seis meses para uma mesa e cobrar caro?
Adrià – Não cobramos caro. Um jantar
no El Bulli custa US$ 130 por pessoa, com um vinho normal incluído.
Quanto à espera, não posso fazer nada. É como ir
à estréia de um filme e não conseguir entrar porque
a fila estava grande demais. Recebemos apenas 45 pessoas por noite,
e elas têm de ser tratadas como deuses. El Bulli não é
um negócio, é mágica.
ÉPOCA – As celebridades aceitam isso?
Adrià – No El Bulli não há
famosos. Não me interessa quem é a pessoa, onde trabalha,
se é um figurão. Aqui todos são anônimos
que compartilham o amor pela alta-gastronomia.
ÉPOCA – Quais são suas fontes de
inspiração?
Adrià – A vida. Viagens e cinema, principalmente.
A Festa de Babette me ensinou que sensibilidade gastronômica independe
de classe social.
ÉPOCA – Qual é seu prato favorito?
Adrià – Costumo dizer que luxo é
poder comer aquilo de que se tem vontade no momento. Agora, eu queria
um croissant. Não adianta me oferecer caviar, que vou recusar.
ÉPOCA – Então é legítimo
ir a um restaurante e pedir coisas especiais para o chef? Muitos ficam
ofendidos.
Adrià – Não há uma regra
rígida para isso. A pessoa tem de saber onde está. Não
exija muito diálogo num filme estrelado por Sophia Loren ou muita
ação em outro dirigido por Woody Allen.
ÉPOCA – O senhor tem preconceito contra
fast-food?
Adrià – Fast-food quer dizer comida rápida,
não necessariamente ruim. Pode-se fazer um sanduíche maravilhoso
com o melhor pão e o melhor presunto. O debate, na verdade, é
social: quanto às pessoas estão dispostas a pagar por
um hambúrguer? No McDonald’s o preço será
um, no Alain Ducasse (que faz um hambúrguer de foie gras a US$90)
outro. A qualidade também será diferente.
ÉPOCA – O senhor já comeu um hambúrguer
que deixou saudade?
Adrià – O que faço em casa.
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