Adriana
é uma guerreira. Guerreira marcada por algumas derrotas e incontáveis
vitórias, mas sempre guerreira. Sua primeira batalha, foi contra
os médicos que diziam que ela não poderia nascer. Mas
Adriana falava ao coração da sua mãe, e dia após
dia, lutando com as poucas defesas que o organismo lhe concedia, passou
de embrião a feto, e deste... até seu choro ecoar na sala
de parto, mais como proclamação de vitória do que
qualquer outra coisa. Foi crescendo por entre trincheiras, transpondo
fronteiras, ocupando territórios, lutando contra os inimigos
fortemente armados, enquanto ela apenas dispunha da confiança
em si mesma, da voraz e inabalável vontade de viver, e de sua
mãe, guardiã fiel e incansável. Enfrentou a saúde
debilitada, a miséria, a discriminação social e
racial, a ausência do pai, a presente e contínua dor da
mãe, os desvios de comportamento do irmão, a traição
do namorado, a desilusão com a melhor amiga, a injustiça
do patrão... de alguns momentos saiu ferida, de outros, fortalecida.
Adriana acaba de se mudar para um pequeno, mas confortável apartamento,
que alugou com o salário que o emprego como assistente de um
advogado, lhe permite. Sai com os amigos de vez em quando, vai ao teatro,
ao cinema, devora livros a fio, se embebeda de música, freqüenta
uma academia de dança. De vez em quando visita a mãe,
que mora numa cidadezinha a 50km. Todos os domingos, arruma uma cesta
com doces e biscoitos preparados por ela mesma, e vai até à
penitenciária do Estado, onde o seu irmão cumpre pena
há três anos.
Adriana é uma mulher bonita, que chama a atenção
por onde passa. Veste-se bem, usa bons perfumes, comprou um carro, e
ajuda a quem pode.
Adriana começou a trabalhar com 8 anos, vendendo balas na rua.
Estudou pouco, mas aprendeu muito. Aprendeu que precisava estudar mais,
fez faculdade. Fala inglês e espanhol.
Adriana é uma grande amiga, mas tem poucos amigos. Guarda segredos
de muitos, mas conta os seus para poucos. Teve apenas um namorado, mas
não desistiu de amar.
Adriana descasca 4 pêras, corta duas em tiras, reserva-as, e bate
as outras duas no liquidificador, com uma colher (de sobremesa) de licor
de pêra, 1 colher (de sopa) de açúcar e ½
xícara de água. Numa frigideira, derrete 2 colheres (de
sopa) de manteiga, coloca as pêras fatiadas, 3 gotas de pimenta
vermelha, polvilha com 1 colher (de sopa) de açúcar, e
1 colher (de sopa) de paçoca doce de amendoim. Mexe para caramelizar.
Adriana sorri, inspirando o aroma que exala da frigideira. Já
passou fome, cresceu vendo em cada alimento um presente da vida, e por
isso é com a alma que os prepara. Olha o pássaro que pousou
na janela, e conversa com ele, sem palavras.
Adriana separa as pêras da calda. Reserva-as. Junta à calda,
o suco da pêra, e deixa ferver.
Enquanto
isso...
Amélia, era a própria Amélia das Amélias.
Não tinha a menor vaidade. Foi também uma guerreira, lutou
por muitas vidas, pela sua e a de seus filhos. Alguns perdeu, e chorou.
Pelo que não perdeu também chorou.
Amélia apanhou da vida, do pai e do marido. A vida mudou, o pai
morreu e o marido a abandonou. Sentiu saudade, mas não lamentou.
Amélia sempre trabalhou, não lembra desde quando. Não
foi à escola, mas aprendeu muito. É recatada, aparentemente
frágil, mas soube ensinar sua filha a ser forte. Usa roupas simples,
seu perfume não vai além do próprio sabonete, não
tem carro, mas ajuda a quem pode. Teve dois maridos, porque não
desistiu de amar.
Amélia bate no liquidificador, 1 1/3 de xícara de leite,
3 ovos inteiros, 2/3 de farinha de trigo, 2 colheres (de sopa) de manteiga,
1 colher (de sopa) de açúcar e uma pitada de sal. Deixa
descansar por meia hora.
Amélia sorri porque está feliz. Olha com ternura o marido,
sentado na poltrona da sala, e serve-lhe um café. Declara seu
amor, sem palavras.
Amélia unta com manteiga uma frigideira antiaderente, aquece-a
em fogo baixo por 2 minutos, girando a frigideira espalha nela 1/3 de
xícara da mistura. Cozinha por um minuto, até que a parte
de baixo fique dourada. Com uma espátula, vira o crepe, e espera
mais 1 minuto. Desliza o crepe para o prato, e vai repetindo a mesma
operação com o resto da massa.
Adriana
e Amélia se encontram, as duas se abraçam, despejam a
saudade e se cobrem de amor, sem palavras.
Adriana traz presentes.
Amélia a presenteia com o olhar repleto de satisfação
e orgulho.
Adriana e Amélia untam um dos lados do crepe, com a calda, dobram-no
em quatro, (para que fique um triangulo), e recheiam um dos compartimentos
com as pêras. Colocam-nos em um pirex untado, e levam ao forno
pré-aquecido, por cinco minutos. Depois, na hora de servir, só
falta flambar com ¼ de xícara de conhaque.
Amélia e Adriana olham para a porta, ansiosas. Anuncia-se o desfecho
de mais uma batalha. Mais uma vitória. É domingo, Amélia
não chora, não ora. Adriana não prepara a cesta
com doces e biscoitos, não vai à penitenciária.
Adriana e Amélia, arrumam os quatro lugares na mesa, preparam
um almoço em comemoração a uma vida que recomeça.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)