_ Olha o morango fresquinho! Quatro caixas por 4 reais!
O rapaz anunciava, automatizado, os privilégios do seu produto, num slogan decorado que nem sempre correspondia totalmente à verdade.
Joana deteve-se, absorta na magnitude do vermelho carmim que envolvia o frescor deste presente da natureza.
_ Vai levar, moça? Leva! Para quê resistir à tentação? Estes são especiais, da melhor qualidade! Tá duvidando?
Joana sorriu timidamente, numa expressão que traduzia não se tratar exatamente de dúvida com relação à qualidade, já que a única incógnita pairava sobre o sabor, cuja ausência talvez se escondesse sob a aparência convidativa. Agradeceu, perante a insistência cordial, e já se dispunha a virar as costas, contendo a vontade denunciada pela secreção da saliva contida em sua boca, quando o rapaz a interpela novamente:
_ Leva! Não precisa pensar duas vezes. Você passa sempre aqui. Amanhã você paga. É para acabar.Você vai se arrepender. Já pensou, com açúcar, leite condensado, chantily...Até sem nada, de tão doces que eles são...
O sorriso confiante e informal, sustentado pelo discurso de quem sabe vender, se sobrepôs a qualquer contrariedade que a impedisse de levar os morangos, e acabou aceitando a proposta tentadoramente irrecusável.
_ Tudo bem, mas com uma condição...
_ Diga moça, aqui quem manda é o freguês.
_ No momento estou sem dinheiro, mas como moro aqui perto, virando a esquina, você passa lá para pegar o dinheiro.
_ Combinado.Negócio fechado.
_É a terceira casa, do lado esquerdo.
_ Quatro caixas de morangos, virando a esquina, lado esquerdo, terceira casa, moça bonita e inteligente, que acaba de fazer a coisa certa.
Sorriu novamente, desta vez como sintoma da satisfação que experimentava ao perceber alguém desempenhar o seu papel com dedicação e criatividade, por mais irrelevante que este parecesse. Produto vendido, missão aparentemente cumprida, no entanto o que caracteriza um bom negócio é o espaço que se abre para a chance de que ele se repita, o que o rapaz se dispunha a fazer com primor.
_ Se alguém na sua casa não gosta de morangos, depois que experimentar estes, passará a gostar.
_ Como se fosse possível alguém não gostar de morangos...
_ É sim.Tenho freguês que não gostava. Eu disse, não gostava, porque depois que experimentou os meus morangos, só não compra quando não tem. Façamos o seguinte, se eu não estiver falando a verdade, você não paga, mas se o morango fôr realmente tudo o que eu digo, amanhã você compra o dobro. Mas faça-me um favor, só desta vez, experimente comer puros.
Já andara alguns metros, enquanto o rapaz parecia acompanhá-la, prolongando a venda num discurso gastronômico de controle de qualidade. Parou, virou-se, e olhou-o fixamente, tentando descobrir no contorno das expressões, traços que lhe contassem mais sobre aquela personalidade, que estimulava o seu interesse numa escala progressiva.
Sorriu de novo, desta vez com menos timidez e mais intimidade:
_ Com certeza você deve ter nascido vendedor!
_ Na verdade, eu nasci sem saber o que seria, cresci, descobri o que queria ser, e me tornei jornalista, aliás, me formei jornalista, e me tornei vendedor...
Havíam parado no meio da calçada. Com delicadeza e extremamente à vontade, transpusera o peso dos morangos das mãos dela para as suas, enquanto Joana observava entre intrigada e encantada, os gestos escancaradamente receptivos deste personagem que ia se revelando, ao mesmo tempo que se tornava cada vez mais misterioso. Ele também a observava, na busca frenética, mas disfarçada, de indícios que desvendassem o que se escondia por detrás de uma inquieta serenidade. Os segundos de silêncio, transbordantes de sensações abstratas falavam mais que o concretismo do que fora dito. Acordada em sobressalto da reflexão em que mergulhara, pelo ranger do freio de um ônibus que acabava de parar, Joana buscou em algum ponto da conversa um elo para disfarçar seus devaneios:
_ Como resposta à sua proposta, gostaria de aceitá-la, mas devo confessar-lhe que pretendo fazer uma sobremesa com estas frutinhas.
_ Resposta à minha proposta? (O elo se perdera também para ele). Ah sim, qualidade comprovada, compra em dobro, freguesa insatisfeita, produto de graça... Hum, não sou muito apreciador de doces. Além disso, vai acabar mascarando o verdadeiro sabor.
Aderindo com cumplicidade à descontração da conversa, respondeu desafiadoramente:
_ Talvez porque nunca experimentou o meu produto, cujo resultado só tende a valorizar a matéria prima.
_ Ah, estou sentindo um clima de desafio! Gosto de desafios! Então mudemos as regras da proposta. Se você me permitir, quando tocar a campainha da sua casa, a princípio para cobrar os 4 reais, você me leva um pouco da sobremesa para que eu a experimente, se ela me agradar, o que aviso, é quase impossível, a matéria prima será um presente meu, em tributo aos seus dotes culinários.
_ Combinado! E desde já, obrigada pelo presente!
Havia no seu olhar, mais do que nas suas palavras, uma certeza inebriante de vitória, enquanto ele, calado, experimentava a mesma certeza.
Já na porta de casa, Joana tomou os morangos das suas mãos. Ele esperou que ela entrasse, enfiou as mãos nos bolsos, e assobiando a melodia dos encantadores de serpentes,voltou para a banca de frutas.
Joana correu para a cozinha. Lavou os morangos embriagando a alma do paladar com a límpida água que envolvia a fruta. Cortou-os na metade e reservou-os. Numa panela, colocou uma colher (de sopa) de margarina para derreter e juntou 5 colheres (de sopa) de açúcar. Deixou que este caramelizásse, adicionou uma colher (de café) dec raspas de limão, 2 colheres (de sopa) de conhaque, e mexeu. Enquanto o açúcar caramelizava, batera no liquidificador 1 1/2 xícara de morangos com meia xícara de água e uma xícara de creme de leite industrializado, que juntou ao caramelo. Deixou ferver, mexendo sempre para que formasse um creme homogêneo. Dispôs harmoniosamente alguns morangos em várias tacinhas, cobriu-os quase que totalmente com o creme, esperou que esfriassem, e polvilhou com raspas de limão.
O objeto da aposta estava pronto, e o coração mergulhado em expectativa. Como se os minutos tivessem sido cronometrados, a campainha soa num prefácio ao veredicto.
Com a tacinha numa mão e a colher na outra, em direção à boca, que se abre no delinear de um sorriso desafiador que se prolonga no olhar, ele cria um clima de suspense, até que saboreia com rigidez de avaliação. Ela o olha ansiosa e inquisativamente, tentando prever o julgamento, e nesta ansiedade parece desvanecer-se toda a anterior certeza de vitória
Uma, duas, três colheres...
_ Não precisa fazer o sacrifício de comer tudo!...
Com a mão espalmada, em sinal de quem pede tempo para responder, e a boca ocupada ludicamente no degustar do alimento, ele esvazia a tacinha, quase sem deixar vestígios do conteúdo.
_ Não costumo fazer sacrifícios, a não ser quando eles se apresentam como única opção ao fim pretendido.
_ Isso quer dizer que...
_ Isso quer dizer que... Você já nasceu Chef de Cusine!
_ Na verdade eu nasci sem saber o que seria. Cresci, descobri o que queria ser, formei-me jornalista, mas confesso que sou apaixonada pela arte de misturar sabores e texturas...
Os dois riram da ironia composta pelas coincidências...


(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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