Quem
disse que os homens não choram? Foi seu pai, seu avô e
toda a infindável gama de homens submersos na soberania do mais
absoluto machismo. Mas aprendera, ao esbarrar com as contrariedades
da vida, que homem chora sim, e quando, por vezes as lágrimas
são inibidas e contidas, por toda uma questão cultural,
ou simplesmente por temperamento, o coração se contorce
em espasmos de dor, e chora. Era assim que se sentia naquele momento:
mergulhado na exaustão do choro, que embora controlado pelo resíduo
de convicções que lhe haviam sido impostas durante a sua
infância, se soltava destas, e escorria molhado, pelo rosto.
Sandro, velho e leal amigo de infância, personagem relevante da
sua passagem pela adolescência, e Regina, a principio colega de
trabalho, com o passar do tempo e a descoberta de afinidades, amiga
confidente, cuja companhia lhe enchia o coração de alegria,
estavam de casamento marcado, e viriam lhe fazer uma visita esta noite,
supostamente para a entrega dos convites.
A noite sussurrava silêncios e se vestia com o manto escuro do
inverno. Na sala, em resposta aos sons ausentes, a madeira crepitava
e se exaltava no alaranjado das chamas, e a lareira exalava o calor
aconchegante que o ambiente começava a respirar. Na mesa de centro,
sobre os jogos americanos, três lugares haviam sido compostos
com terrinas para o consume que celebraria a ocasião, à
qual se ergueria um brinde, em cristais coloridos pelo vinho.
Dirigiu-se à cozinha, divido entre o anseio do momento, e a inconsciente
vontade de retardá-lo. Refogou em um fio de azeite de oliva,
cascas e cabeças de camarão, (que pegara de graça
na banca de peixes, na feira), uma cebola média e dois dentes
de alho. Juntou um litro de água, e deixou ferver por cinco minutos.
Sem definir se, para cortar o silêncio que intensificava a voz
da alma em gritos de dor, ou para impor a estes uma outra cadência,
minimizando-os com o deleite da melodia, transformou em companhia, o
dedilhar do violão de Paco de Luccia. Enxugou as lágrimas,
respirou fundo, e trouxe à superfície toda a satisfação
que se fazia presente quando preparava alguma refeição.
Bateu o caldo de cascas no liquidificador, coou e reservou. Derreteu
numa panela uma colher (de sopa) de margarina, juntou uma colher (de
sopa) de farinha de trigo, mexeu, e foi acrescentando o caldo, aos poucos
e mexendo sempre, para que não criasse pelotas. Adicionou uma
pitada de sal e noz moscada moída. Desligou o fogo, e juntou
uma xícara de creme de leite industrializado.
A campainha soa como uma sentença. Camufla a tristeza, retribui
os sorrisos e os abraços, reserva o homem, expõe o amigo.
Viu-se tentado a permanecer contemplando aqueles traços suaves
e marcantes, delineados por uma expressão doce, e jovialmente
amadurecida, olhos negros de clara transparência. Mas a implacabilidade
de uma amizade que se estabelecera como prioridade, desviou o olhar
para o rosto do homem, que transpirava simpatia e se embebia de ternura.
Sandro era assim, descontraído, disponível, autêntico,
de uma brutalidade terna. Sempre fora o amigo das horas fáceis,
nunca das difíceis, porque estas, ele tinha a mágica capacidade
de transformá-las, sempre buscando o melhor dos momentos, onde
o coração se nega a encontrar.
Em meio a risos, reflexões e ironias, as novidades foram trocadas,
e as futilidades autorizadas a passear nas entrelinhas dos assuntos.
O consume foi servido, polvilhado com alguns crutons,(cubinhos de pão
torrado ou frito), e saboreado em elogios que se decifram. Sandro dirigiu
a Regina um olhar de cumplicidade, como que buscando um prefácio
para o que precisava ser dito:
_ Bom na verdade, a novidade mais importante ainda não foi contada!
Novidade não, talvez uma ratificação daquilo que
comprimia o coração de Adonis.
Regina permanecia calada, e olhava Adonis fixamente, deixando que Sandro
tomasse as rédeas da situação, contrariamente ao
que sempre acontecia entre os dois.
_ Em lealdade à nossa amizade, nós viemos dar-lhe em primeira
mão, a notícia de que desmanchamos o namoro, e portanto,
desmarcamos o casamento!
A colher que se dirigia à boca, ficou suspensa na mão
imóvel, os lábios, que haviam se distanciado para permitir
a entrada da colher, conservaram a distância, numa total inércia,
o queixo, caído, tomado pela perplexidade, o olhar, de indagação,
o coração, pego pela surpresa, ora preso na incredibilidade,
ora em sobressaltos de esperança. Adonis esperou que Regina confirmasse,
e ela o fez, explicando que depois de uma longa conversa, os dois haviam
chegado à conclusão de que, uma razoável atração
física e uma grande amizade, fora confundida com amor, o que
era insuficiente para levá-los ao casamento. Quanto à
atração física, sentiu-se incomodado, (embora todos
os fatos o levassem a essa conclusão, ouvi-lo de sua própria
boca, mais uma vez, pois já o confessara em uma de suas conversas,
era constrangedor), mas a forte amizade sempre representara um elo entre
os três.
_ Lamento, (havia um pouco de verdade neste lamento), que o vinho, (começou
a encher as taças, procurando nos movimentos um apoio para as
palavras), tenha que ser desviado do brinde.
Rogério, que recuperara seu jeito mágico de encontrar
o melhor de cada momento, inclinou-se para pegar a taça, e argumentou
com convicção:
_ Não seja por isso. Com certeza encontraremos algo que se possa
e deva brindar.
Regina, com um pouco menos de convicção, mas com uma expressão
de anseio por novas perspectivas, completou:
_ Brindaremos às respostas encontradas, e à formulação
de novas perguntas, pois onde há dúvidas, há metas
a serem alcançadas!
Poesia e sensatez, numa mistura encantadora, era uma de suas características.
A sensatez o fez segurar a emoção de novas esperanças,
e a poesia abriu as portas para um sono, onde se passeia pelos jardins
da fantasia.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)