Inspirou com o olhar cada molécula das paredes à sua volta, compondo uma sensação de conforto, num misto de proteção e responsabilidade, tocando-lhe a pele e enchendo-lhe os pulmões. Numa viagem de retorno às raízes, passava a respirar a atmosfera de um planeta realmente seu. Os objetos e o espaço que os envolvia traduzia-se em um sussurro de boas vindas, colocando-a cara a cara com o sinestésico reencontro daquilo que mais prezava: a sua verdadeira identidade.
Sentada na cadeira de rodas, sob o batente da porta da sala, entregou-se totalmente às emoções daquele momento, permitindo que elas a absorvessem em cada detalhe, presa ao ânimo do que é inanimado, e ignorando as pessoas presentes, as quais só mais tarde, ao desprender-se do plano metafísico, para voltar à postura prática perante a vida, percebeu que a observavam, entre expectativas, curiosas e invasoras.
Lembrou-se de que, mais ou menos um ano antes, quando fizera seu mapa astral, lhe fora dito: “Você é uma pessoa que formula seus conceitos de uma forma totalmente independente, não se prendendo à moral estipulada por nada, nem ninguém, mas sim, criando a sua própria moral.” Se no seu comportamento, esta constatação nem sempre se confirmava, ela sentia que era a mais fiel tradução do seu mundo interior, (se é que este tinha tradução, ou se resumia-se a uma linguagem própria, única, indecifrável). Quanto mais percebia a sua individualidade, mais procurava entender e aceitar os diferentes comportamentos e personalidades daqueles que marcavam presença na trajetória da sua vida, sem que esta diferença os rotulasse de melhores ou piores, embora na íntegra e na prática, isso nem sempre fosse possível, porque, talvez por um vicío de cultura, ou por característica latente à condição humana, as observações do indivíduo flutuam num patamar, onde a comparação está intrinsecamente presente.
Pediu à enfermeira que conduzisse a cadeira até à cozinha, onde ficara uma parte da sua alma, e recuperou-a sôfrega e serenamente no preparo de uma sobremesa, cujos ingredientes, por determinação sua, a empregada já havia providenciado. A muito custo, desafiando os limites físicos de sustentação e mobilidade, que lhe haviam sido impostos pelo acidente, e sob os protestos zelosos da própria enfermeira, desvencilhou-se do veículo que lhe facilitava a locomoção, pedindo-lhe que esta segurasse os seus quadris, os quais ainda não tinham adquirido firmeza muscular, encostou a barriga na pia, e mergulhou no ritual de um passeio pelos caminhos do paladar.
Separou uma xícara de uvas tipo Itália, cortadas ao meio e sem caroço, e fez o mesmo com as uvas rubi e as uvas pretas.
Sob os olhares de preocupação opressora, constrangia-se com a invasão de privacidade, mas a magistral plenitude da constatação do presente que recebera ao lhe ser devolvido o dom da vida, desenhava em sua alma um sorriso, transferindo a cada gesto a mais absoluta paixão e dedicação.
Bateu no liquidificador 1 ½ xícara de creme de leite industrializado, 1 colher (de sopa) de mel e seis folhas de hortelã.
As três crianças, aos poucos digerindo a nova imagem de quem desaparecera tão abruptamente do seu dia a dia, e voltara ainda apenas com a promessa de sua presença, entraram na cozinha, num ímpeto tímido de observar o que estava acontecendo. Olhou-os com o peito transbordante de saudade, e abraçou-os com a alma gratificada por aquele momento, saboreado e vivenciado com a sede de quem degusta cada gole de água contida num pequeno pote, em pleno deserto.
Colocou as uvas num recipiente de vidro incolor, envolveu-as no creme, e polvilhou com crocante, (pode ser achado pronto nos supermercados ou em casas especializadas).
Ao aprendizado, da ausência da livre capacidade que lhe fora arrancada sem aviso prévio, e da imposição de novas limitações, era imposta a borbulhante presença daquilo que definia como felicidade, porque amava o “mundo” em que vivia, e se deliciava com este fenômeno maravilhoso que lhe fora colocado nas mãos, denominado como “vida”, acima e antes de tudo, guardando dentro de si, espalhando ao seu redor, a infinita e eterna gratidão por lhe ser permitido existir!

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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° Creme de Leite
° Crocante
° Hortelã
° Mel
° Uvas (brancas, rubi e pretas)

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