As
lágrimas arrastavam-se lentamente pelo rosto, como se acompanhassem
o compasso da dor que vai se instalando dentro do peito, devagar, na
tentativa em arrumar um espaço para alojar sua intensa imensidão,
sem estourar suas paredes, e fazê-lo derramar-se em rios de sangrentos
devaneios.
Em toda a espécie de sensações que pudessem povoar
seu interior, não havia estrutura para vocábulos, sinônimos
ou metáforas, mais se parecia com retratos desordenados, rasgados,
cujas imagens quase imperceptíveis, eram assustadoramente tristes
e caóticas.
Fechou os olhos, fechando qualquer vinculo com a visão exterior,
pediu ao coração, num apelo desesperado, que a ajudasse
a varrer o breu dos becos formados pela penumbra das lembranças
dolorosas, e a iluminar estes caminhos, ainda que tênuamente,
para que neles pudesse vislumbrar alguma esperança, ainda que
tímida, e alguma cor , ainda que pastel. Enchia os pulmões
de ar, e expirava-o lenta, mas plenamente, na intenção
de expelir com ele todo o desconforto da decepção. Por
alguns instantes, este sopro estagnava as lágrimas, continha
os soluços e anestesiava a alma, enquanto o silêncio gélido
da madrugada impregnava as paredes brancas da cozinha.
Colocou num recipiente 4 colheres (de sopa) de chocolate em pó
(meio amargo), duas xícaras de leite, casca de meio limão
(cortada finamente, sem machucar a fruta), e uma colher (de chá)
de gengibre ralado. Levou ao fogo alto até que fervesse, sem
parar de mexer. Baixou o fogo, e continuou mexendo com movimentos largos,
mas suaves, por mais ou menos 10 minutos, para que a consistência
deste engrossasse, assemelhando-se à de um mingau ralo.
Imersa na contemplação de textura aveludada que a bebida
ia adquirindo, deixara que seu espírito se despisse das auto-defesas
a que recorrera momentos antes, e o viu de novo coberto como manto pesado
da desilusão. As imagens da sua mente agregavam-se às
do coração, e desenhavam com traços fortes a expressão
cruelmente fria do rosto do homem que amava, e seu imperativo desprezo
com relação ao suplicante apelo de carinho, na procura
por um abrigo reconfortante que alojasse seu coração na
brisa morna de outro coração onde o amor imperasse. A
visão de um homem, para ela assustadoramente desconhecido, dilacerava-lhe
as entranhas e sugava-lhe todas as forças em espasmos de solidão.
As lágrimas que haviam estancado, obedecendo aos códigos
de sobrevivência, retomavam seu curso, e brotavam dos olhos, tomando
o caminho mais curto, mas doloridamente lento, enquanto desciam pelo
rosto enquanto iam perdendo o seu volume, mas não a sua intensidade,
até se perderem na cavidade do colo. Com a palma da mão
alargada na sua capacidade máxima, tentou não só
enxugar o pouco liquido que restava, como também apagar qualquer
vestígio do sentimento que lhes dera origem. Fechou-a, na esperança
de que uma triunfal mágica reduzisse toda a dor na irrealidade
de um pesadelo, e levou-a ao peito, como que para devolver-lhe forças.
Inspirou o doce e levemente apimentado aroma que emergia com a nuvem
de calor, desligou o fogo, coou o chocolate para que a maciez da bebida
não fosse quebrada pelos grãos de gengibre moído,
despejou-o suavemente numa xícara de porcelana branca, na qual
já havia colocado uma colher (de sopa) de conhaque, provocando
que toda a essência deste se misturasse lentamente à do
chocolate.
Afastou a cadeira da mesa, sentou-se, e segurando a xícara entre
as mãos, numa quase parasita troca de energia, levou-a aos lábios,
para primeiro sentir o toque ardente do liquido que esta continha, e
depois deixá-lo passear por todos os estímulos do paladar,
até que escorresse pela garganta, e transferisse a cada milímetro
do seu corpo e alma o estimulante calor, aliviando o frio cortante da
lâmina que lhe rasgava o peito.