Viúva dá aulas de pintura a domicilio. Além dos trocados que consegue juntar difundindo este “dom que Deus lhe deu”, e aprimorado pela experiência da prática,o sustento é completado pela aposentadoria do marido, que faleceu há uma década. Do passado, quase não restam amigos, alguns porque já se foram, outros porque acabaram mudando para cidadezinhas do interior,onde a violência e o desgaste da correria diária, parecem amenizados. Seus elos afetivos acabam se restringindo a telefonemas,cartas e fotos que recebe do único vínculo familiar que lhe resta, mas que o destino se encarregou de fixar no lado de cima do Equador, num continente que denominados como América do Norte, numa Nação batizada como Estados Unidos da América, que parece querer governar o mundo assumindo um papel autoritário e totalitarista. Sua única filha, que desde pequena se mostra esforçada e determinada, conseguira, às custas de muito trabalho, juntar um dinheirinho para ir conhecer o país do Oscar, do domínio econômico global, da proliferação de modismos... e aprimorar o seu inglês, item que pretendia passar a inserir em seu curriculum. Acontece que nesta viagem acabou conhecendo um americano, por quem se apaixonou. Casou, obteve o greencard, instalou-se sem desconforto numa pequena casa em Miami, arrumou emprego como tradutora, teve dois filhos, e apesar das saudades da mãe querida, sempre tão companheira, está feliz, felicidade esta retratada nos telefonemas, cartas e fotos que envia com certa regularidade O contato pessoal foi suspenso há cinco anos, porque a situação financeira ainda não lhe permitiu um retorno à sua pátria, ao país que, apesar das notícias ora assustadoras, ora reconfortantes, que lhe chegam, lhe deixou muitas saudades.
Viúva coloca uma colher (de sopa) de açúcar numa pequena panela, leva ao fogo deixa torrar, acrescenta duas xícaras de água, a casca de uma goiaba, a casca de uma laranja, duas folhas de hortelã, e espera ferver. Côa, e toma o chá, acompanhado do pãozinho que acaba de pegar na padaria da esquina, enquanto solitária e atentamente lê o jornal, preocupada com o desfecho da guerra iminente. Seus conhecimentos não lhe permitem uma noção exata dos prejuízos que pode acarretar um ataque ao Iraque, nem a legitimidade das intenções do presidente Bush, mas a concretização desta ameaça pesa-lhe no coração e nas mãos que ostentam o jornal, onde se discute e avalia as conseqüências em massa, através de ponderações políticas, econômicas e estrategistas, mas onde o indivíduo, elemento básico dessa massa, esquecido em sua essência individual, permanece assustado nas entrelinhas.
Viúva teme pelo futuro, pela solidão e pela dor da filha, cujo marido faz parte do exército americano. Como se não bastasse, por uma dessas investidas irônicas do destino, seu genro tem um irmão que, por razões que não vêm ao caso, casou com uma iraquiana e mora a 20km de Bagdá. Com tudo isso, essa dor é intensificada e estendida, a outro continente, porque o ser humano se despe de conceitos e barreiras, quando o que fala mais alto é o amor ao próximo, e trás para o nosso cotidiano a preocupação com aquele que, aparentemente, não está tão próximo.
Viúva reflete sobre o caos a se estabelecer perante as vidas que são perdidas, por morte, por ausência,ou por perda e desestruturação de vínculos sociais, econômicos culturais...(embora não consiga defini-los de uma forma racional).
Viúvas no Brasil, no Iraque, nos USA, ou em qualquer outra parte do planeta, cuja capacidade de discursar ou argumentar fica minimizada a favor dos que desenvolveram o dom da retórica, não encontram outra linguagem, senão a da simplicidade do coração, onde a preservação da liberdade e da vida de qualquer ser humano, se constitui o bem maior.

 

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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