O comportamento de Eduardo, que sempre fora delineado pela rigidez da razão, enquanto suas emoções ficavam trancadas e comprimidas num compartimento, elaborado com um certo material que costuma ser identificado como auto-defesa, naquele instante vê-se propenso a depor as armas e os escudos, escancarando as portas do coração, e libertando os gestos, permitindo que estes denunciem em toda a sua magnitude a eloqüência da paixão declarada, e a consagração de um amor, onde as almas compartilham a mesma linguagem.
Enquanto aguarda Maria, disposto a declarar-lhe todo o seu amor, reformulando conceitos e atitudes, na busca incessante de harmonia, lava quatro laranjas, corta a parte de cima, como se fosse uma tampa, retira a polpa cuidadosamente, sem machucar a casca, e reserva-as.
Retira do bolso uma folha de papel, cujo peso lhe fora conferido pela dor que a impregna, mas também cujo valor se exalta na plenitude do sentimento que se declara em cada palavra, e lê pela enésima vez a carta que recebera no dia anterior, responsável pela tomada de novos rumos:
“Hoje o meu coração está caótico de tantos sentimentos que se atropelam e desencadeiam tristezas, carências, decepções e dúvidas. Tento racionalizar, mas até a razão se depara com um labirinto de incertezas. Pareço ter perdido a minha identidade, e a meta de ser feliz fica encoberta pela nebulosidade da dor. Acima de qualquer coisa eu era a “sua Maria”, acima de qualquer desejo prevalecia o de estar a seu lado, no meio de qualquer tempestade encontrava em você o meu “porto seguro”, apesar de qualquer lágrima o seu sorriso me aliviava, diante de qualquer auto crítica a sua tolerância me aliviava, diante de qualquer medo a sua mão segurava na minha, e mesmo que os caminhos parecessem confusos e difíceis o seu amor me dava forças para continuar. Não me sinto mais a “sua Maria”. Fico tão pouco ao seu lado, o meu “porto seguro” se esconde na neblina de auto defesas, o seu sorriso se restringe a estímulos musculares,. você tem se tornado intolerante, a sua mão tem esquecido da minha, percebo o seu amor enfraquecido e perco a força de viver.Quis chorar no seu ombro e suplicar por ajuda, mas as lágrimas e as palavras se tornam insuficientes para alcançar o seu coração, e o desespero que toma conta de mim, aos poucos vai se transformando em melancolia. Estou carente de mimo, de uma mão complacente sobre a minha cabeça, de um abraço onde a minha alma se refugie, de um coração que receba as minhas queixas, despido de qualquer razão.Pensei em entrar num chat para desabafar com alguém, mas me contive, com receio de aumentar o abismo que começa a se formar entre nós. Tenho em você o meu melhor amigo, e por mais deficiências que possam existir nessa amizade, por enquanto, você é o único que existe de verdade.”
Coloca a carta de lado, e embrenhado na análise emocial de todo o contexto deste parágrafo, coloca numa panela 1 ½ xícara de suco de laranja, 1 colher (de sopa) de açúcar, 2 gotas de pimenta vermelha, 1 cebola inteira, um ramo de salsa, e uma pitada de sal. Leva ao fogo até ferver. Retoma a leitura da carta:
“A cumplicidade que se formou entre nós parece estar abalada, mas por saber não conseguir viver sem ela, insisto em querer recuperá-la.
São duas e meia da manhã e eu deveria estar cantando “Bom dia tristeza”.Há alguns minutos, a uma distância de mais ou menos 20 centímetros, pude observar os músculos do seu rosto contraídos, por toda a rigidez das atitudes que, implacavelmente feriam o meu coração. Pude ver em seus olhos, a palidez da falta de emoção, e a frieza , enaltecida por toda uma prepotência.Naquele momento só consegui pensar que gostava menos de você, que não reconhecia no homem à minha frente o companheiro e amigo, mas sim, alguém egocêntrico e dono da razão. Você tem realmente uma incrível capacidade e competência para argumentar, mas falta-lhe poesia, e os sentimentos reconhecidos tornam-se poemas, mesmo que na sua forma mais simples.
Não sei quanto tempo demorarei para me refazer da decepção e constrangimento pelo qual acabei de passar, não sei sequer se o conseguirei por completo, mas pode ter a certeza de que todo o encantamento se desvaneceu, e o “meu Eduardo” está vinculado a lembranças e ilusões, não faz parte do presente nem do real. Apesar de toda a fragilidade que deixo transparecer em atitudes e palavras, existe em mim um cerne fortalecido, que não precisa se expor e que, de tão forte me permite deixar o meu lado emocional despido de qualquer defesa.
A dor me incomoda, mas passado o primeiro momento, em que sou pega de surpresa, ela não mais me dilacera, mas passa a fazer parte de uma lista de experiências que me ajudam a crescer.”
Não suportaria perdê-la, mas antes de tudo, não suporta vê-la sofrer, e pune rigidamente o seu coração por saber-se causador de tanta dor. O liquido da panela já ferveu. Acrescenta-lhe 2 xícaras de camarões grandes (sem casca), e deixa ferver por mais ou menos cinco minutos. Retira a cebola inteira e o ramo de salsa. Junta 1 ½ xícara de creme de leite industrializado, misturando bem. Desliga o fogo. Enche as cascas de laranja com o creme, polvilha com queijo tipo Parmesão ralado, coloca-as numa assadeira com um dedo de suco de laranja, levando-as ao forno pré-aquecido, para gratinar, e as servirá mais tarde, acompanhadas por arroz branco, àquela que, indubitável e intrinsecamente, é e sempre será a “sua Maria”.

(É permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)

 
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° Açúcar
° Camarão
° Cebola
° Creme de Leite
° Laranja (casca inteira)
° Laranja (suco)
° Pimenta Vermelha
° Queijo Tipo Parmesão (ralado)
° Sal
° Salsa

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