Ao
contemplar o enorme pote de vidro repleto de pequenos biscoitos açucarados,
(mais ou menos 50), levei a mão rosto para enxugar a lágrima
que, inadvertidamente escorria por ele. Não era lágrima
de tristeza, mas de uma serena saudade que a doce lembrança da
vóvó acalentava em meu peito.
As tardes da minha infância haviam sido recheadas de pequenas
histórias, que ganhavam vida na voz e interpretação
da minha avó, enquanto nos lambuzávamos de farinha, na
aconchegante cozinha da sua casa. Chovesse ou fizesse sol, aventuradas
em uma nova receita ou apenas repetindo uma da minha preferência,
o pretexto para esta deliciosa convivência acabava criando raízes
em volta do fogão.
A grande e familiar bacia azul, era colocada em cima da mesa, e eu,
orgulhosa da minha função, corria para pegar os ingredientes
no armário, à medida que estes eram solicitados. Quatro
xícaras de farinha de trigo. (Às vezes eu assoprava, apenas
para provocar o sorriso límpido que se desenhava naquele rosto
vivido, emoldurado pelos cabelos brancos). Duas xícaras de açúcar.
Uma colher (de sopa) de fermento em pó. Trezentos gramas de margarina
com sal. Três colheres (de sopa) de raspa de laranja. (Que a vóvó
já reservara em um pires). Uma colher (de sopa) rasa, de canela
em pó. Três ovos. (Ah, os ovos estavam naquela galinha
de arame, que nos primeiros anos da minha infância despertara-me
tanto a curiosidade).
As mãos que manejavam as agulhas com habilidade para confeccionar
casaquinhos para os bebês da família, que já haviam
me dado banho, que me faziam carinho, agora misturavam e amassavam com
firmeza todos os ingredientes, até transformá-los numa
massa consistente, (nem muito mole, nem muito dura, mas consistente
o suficiente para que se fizessem bolinhas com ela). Colocavam-se as
bolinhas em uma assadeira levemente untada com óleo, (as quais,
devido à minha colaboração variavam de tamanho).
A assadeira ia para o forno pré-aquecido, durante aproximadamente
quinze minutos, enquanto nos ocupávamos enchendo outra.
Apesar de ter se tornado a receita que mais repetíamos, era sempre
com grande ansiedade que eu corria para a porta do forno, na expectativa
de ver sair dele o resultado da nossa brincadeira. Os biscoitos eram
retirados e, ainda quentes, dispostos cuidadosamente numa outra assadeira
cheia de açúcar refinado, e polvilhados com o mesmo. Depois
de frios, uns eram colocados em um grande pote de vidro, outros, acompanhados
de chá ou chocolate, faziam parte do epílogo destas tardes
maravilhosas, ao embalo de histórias que, sem dúvida,
ajudaram a construir a minha própria história de vida.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)