Aquela
que é considerada a sétima arte, o cinema, mais do que
imitar a vida ou se deixar copiar por ela, engloba uma série
de elementos que se dispõem a despertar a sensibilidade dos sentidos.
Nele se obtém um resultado onde roteiro, música, fotografia,
figurinos, maquiagem, cenários, direção, a própria
atuação e outros itens que, por vezes, displicentemente
tomamos como secundários, se encaixam em perfeita harmonia.
Foi com este senso de observação crítica que, depois
de deixar que a minha emoção se emaranhasse pelo teor
dramático do filme, eu analisei cada segmento que o compunha,
e o resultado final se traduziu em um pedido de bis. Estou referindo-me
a “A Conspiração”, dirigido por Rod Lurie,
estrelado com primazia por Joan Allen, Jeff Bridges e Gary Oldman, (o
que valeu a indicação ao Oscar de melhor atriz e melhor
ator coadjuvante, respectivamente, aos dois primeiros), conta com a
participação de Steven Spielberg na direção
executiva, e música de Larry Groupé, (maestro responsável
pelos arranjos orquestrais do álbum Magnification do grupo Yes).
O enredo desenrola o novelo de uma conspiração política
que tenta vetar a indicação à vice-presidência
da senadora Laine Hanson, trazendo à tona um escândalo
sexual do seu passado. Repleto de discursos de uma moral ideológica,
mas coerentemente lúcidos, sem abordar o pieguismo, este filme
nos faz parar e reavaliar os nossos princípios conceituais que,
embora aqui se insiram num contexto político, podem e devem ser
paramentados na ampla escala da moralidade. O discurso final do presidente
Jackson Evans, magnífico na sua eloqüência, foi muito
bem escrito, assim como todos os diálogos desta trama. No entanto,
o fator principal que me fez trazer a sugestão de “A Conspiração”
para este site, foi a paradoxalmente sutil e marcante, referência
à gastronomia, presente nos pedidos de refeições
do personagem representado por Jeff Bridges, onde ele, de uma forma
que seduz o paladar, descreve a composição do prato, e
transporta os apaixonados pela arte do sabor, a um intrigante e desafiador
passeio pelos caminhos da elaboração das mesmas. Em uma
determinada cena, o presidente oferece biscoitos, os quais descreve
com o êxtase que é peculiar àqueles que primam por
saborear o que ingerem. Ele diz que o biscoito tem passas em abundância,
passas com sabor de uva. O teor enfático deste comentário
despertou em mim uma inquietude desafiadora, e me propus a criar algo
que pudesse se assemelhar ao descrito, ao menos no apetite que desperta.
Separei duas xícaras de uvas passas sem sementes (de boa qualidade),
e deixei-as imersas em suco de uva natural, por duas horas. Coei-as.
Num recipiente, juntei duas xícaras de farinha de trigo, uma
xícara de açúcar, 100g de margarina com sal, dois
ovos inteiros e 200g de creme de leite industrializado, (sem o soro).
Amassei, até obter uma massa de consistência média,
à qual acrescentei em seguida as uvas passas, envolvendo-as por
completo. Fiz pequenas bolas e coloquei-as numa assadeira untada com
margarina, levando-a ao forno pré-aquecido. Após aproximadamente
20 minutos, retirei-as do forno e esperei que esfriassem, para poder
definir o resultado da minha experiência.
Não sei se a descrição de Jackson Evans com relação
ao resultado seria tão deliciosamente calorosa, e com certeza
a minha avaliação parecerá suspeita, mas anexo
a sugestão da receita à do filme, esperando que estes
envolvam os sentidos que cabem a cada um, de uma forma satisfatória,
ou quem sabe... magistral.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)