Meu
grande amigo: (sem qualquer alusão ao seu tamanho, rs,
rs)
Como é maravilhosa a evolução da tecnologia, ao
me permitir disfarçar aquela preguiça (que você
conhece muito bem) que eu tenho com relação ao ato de
escrever, não pela procura de palavras ordenadas que compõem
frases, mas pelo esforço manual de pegar a caneta e deslizá-la
abruptamente sobre o papel. Parece que pressionar o teclado deste computador
se torna muito menos cansativo e mais ritmado. Assim, dei um basta na
ausência de noticias, e resolvi mandar um extenso e-mail.
Desvencilhando-me das banais divagações sobre o tempo,
o trabalho ou as horas de lazer, e como a principio não existe
nada realmente relevante sobre os acontecimentos mais recentes na minha
vida, passo deste tema para outro, o qual me mantém até
ao presente momento em estado de despertada emoção.
Ratificando a minha tão exacerbada paixão por cinema,
tenho corrido até à locadora com notável freqüência,
e na busca de coisas boas, acabo me sujeitando a ocupar meu tempo e
DVD com algumas que poderiam ter sido excluídas. Mas como avaliar
sem conhecer?
Meu amigo, prefaciando a sabedoria popular de que “conselho se
fosse bom, não seria dado, mas sim vendido”, (cobrando
apenas um retorno com a sua sincera opinião), aqui vai um conselho,
(quase uma ordem), sem qualquer resíduo de exageros empolgantes,
lúcido e coerente na avaliação, (pelo menos até
onde a latente cinéfilia me permite). Corra até à
locadora mais próxima, e resgate o filme “As Horas”.
Você irá concordar que se este conselho fosse cotado, seu
valor seria incalculável. (rs,rs).
Para que não haja alguma dúvida sobre a atitude a tomar,
adianto-lhe que se trata da história da vida de três mulheres,
sintetizada em um só dia que, embora decorrido em épocas
diferentes, parece conter um vínculo entre si. Baseado no romance
homônimo de Michael Cunningham, (o qual ganhou o prêmio
Pulitzer), e tendo como espinha dorsal o livro “Mrs. Dalloway”,
da controvertida e desafiadora de costumes, escritora Virginia Woolf,
conta com o primoroso trabalho de direção de Stephen Daldrey.
Meryl Streep, Juliane Moore e Nicole Kidman estão magníficas
em suas performances. A sublime trilha sonora é de Phillip Glass,
e a montagem esplêndida prima pela perfeita fusão de imagens
e diálogos.
Se você concordar comigo, mesmo que, não com tão
exaltada paixão, recomende este filme a quem puder, pois nenhum
ser humano com um mínimo de sensibilidade deve ser privado de
momentos tão preciosos.
Depois desta apologia esgueiro-me para outro assunto que não
fica, de forma alguma, isento de méritos, tendo como vetor de
avaliação a sensibilidade do paladar.
Mergulhado em mais uma das minhas paixões, no cúmplice
clima do meu laboratório gastronômico, (nome pomposo que
acabo de dar para a minha cozinha), elaborei uma receita digna dos Deuses,
(Permita-me a falta de modéstia!), e não posso evitar
de compartilhá-la com você.
Numa panela, em fogo baixo, refogue em duas colheres (de sopa) de manteiga,
uma xícara de salsão picado, durante cerca de três
minutos. Desligue o fogo e adicione ½ cálice de conhaque,
uma colher (de sopa) de mostarda preta e ½ xícara de salsa
picada. Tempere 4 bifes de contra-filé com este molho, e reserve-os
por uma hora. Enquanto isso, em outra panela, em duas colheres (de sopa)
de manteiga, refogue 1 ½ xícara de mini-cenouras e 1 ½
xícara de buquês de brócolis. Acrescente dois dentes
de alho moídos e uma pitada de sal. Tire os bifes do molho. Doure-os
dos dois lados em uma frigideira anti-aderente. Jogue o molho por cima,
e deixe ferver. Como este ritual do paladar é prefaciado pela
visão, disponha os bifes em uma travessa, rodeados harmoniosamente
pelos legumes, e regue-os com o molho, polvilhando com um pouco de salsa
picada.
Lamento dizer, meu amigo, mas mais uma vez você terá que
concordar comigo!
Não que os assuntos tenham se esgotado, mas os meus dedos começam
a ficar cansados... (não ria do fato, mas acontece que a resumida
prática no manuseio do teclado, resume também a minha
resistência). Portanto aqui me despeço, deixando-o na expectativa
de um novo contato eletrônico, (sem promessas). Quem sabe, na
evidência de um outro filme que contagie a minha emoção,
e desperte no meu senso critico elogios tão calorosos! (rs, rs)
Abraços,
Luis
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)