Viviane
acabara de amamentar o filho, e voltara para os seus afazeres na cozinha,
começando por lavar bem 20 batatas grandes (de polpa branca).
Meu primeiro encontro com Viviane fora sob o véu negro e gelado
nas ruas da madrugada de São Paulo. Na calçada, despida
de qualquer aconchego, contorcia-se na luta pela vida, prestes a anunciar
outra vida. Sem hesitar, indignada com a precariedade da condição
humana, coloquei-a no carro e levei-a a um hospital publico, para que
fosse atendida dentro das possibilidades que o sistema permite. Emocionada
com a recompensa obtida pelo olhar que me dirigiu ao apertar contra
o peito seu filho recém nascido, o qual se traduzia em extrema
gratidão, não pude devolvê-la às ruas, e
levei-a comigo para o Lar.
Enquanto misturava 500g de manteiga com uma xícara de salsa picada,
2 colheres (de sopa) de mostarda e 2 xícaras de queijo tipo parmesão
em lascas, observei, enternecida, a expressão jovial daquela
menina de 16 anos, que apesar dos contratempos que a vida lhe reservara,
evidenciava o que de bom esta lhe oferecia, e transpirava felicidade.
Por tanto empenho em retribuir a conquista de uma nova família,
tornara-se o meu braço direito, e hoje agradeço por tê-la
encontrado.
Untei as batatas, uma a uma, por completo, com o creme, passando-as
em seguida para Viviane, que as embrulhava em pedaços de papel
alumínio, fazendo um tipo de trouxa, com as pontas para cima,
torcidas.
Viviane, filha única de pais modestos, conservadores e pouco
esclarecidos, engravidara do seu primeiro namorado, que ao receber a
notícia negara-se a assumir qualquer tipo de responsabilidade,
e ausentara-se por completo de sua vida, indo fazer faculdade numa cidade
distante. Diante da reação da mãe, que não
poupara adjetivos cruéis para classificá-la, arrematando
com a enfática declaração de que acabara de perder
uma filha, e do pai, que após espancá-la decidiu que a
levaria ao médico para tirar esse “filho do pecado”,
Viviane, com o corpo e o coração cobertos de hematomas,
colocou numa sacola algumas roupas, muita tristeza, tênues esperanças,
embora sustentadas pela forte determinação em alimentar
dentro de si uma vida que alimentaria sua própria vida, e pegou
um ônibus para a capital, um universo desconhecido, do qual apenas
ouvira falar ser um ponto de divergentes e alternativas possibilidades.
Sozinha, num mundo onde as ilusões se desfazem e as dificuldades
se impõem, acabou vivendo de esmolas e tendo como moradia o desabrigado
concreto das ruas da cidade.
Coloquei as batatas (embrulhadas no papel alumínio), diretamente
na grelha do forno, e assei-as por 40 minutos em temperatura média.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
Este
conto continua em outra receita.