Pai, estou perdida na imensidão do vazio que a saudade de ti despejou sobre mim. Confusa, num ponto da estrada onde os caminhos do passado, do presente e do futuro se tornam caóticos, num emaranhado de razão e emoção, tento condensá-los e visualizar deles a melhor paisagem, mas torna-se implacável, no primeiro, o arrependimento por aquilo que não foi dito, talvez nem pensado, mas com certeza sentido, no segundo, a agonia da impotência em poder torná-lo mais breve e menos dolorido, no terceiro, um medo atroz que nem a vontade ou esperança conseguem desviar.
Estendo as minhas mãos para segurar entre elas a imagem do homem lúcido e confiante, que conseguia mesclar malandragem e autoridade com uma terna e ingênua docilidade. Do homem que escondia timidamente um sim, sob um enganador enfático não. Do homem que mentia, para expor a verdade que não queria ver, mas que também usava a própria verdade para expor o que precisava ser visto. Do homem frio e egoísta em alguns momentos, mas extremamente acolhedor e abnegado em outros. Do homem elegante, sedutor, culto, inteligente, sensível e com uma pitada de bom humor, que por vezes descortinava todas essas qualidades, e que outras as deixava submersas, escondidas ou disfarçadas por algumas características desagradáveis, mas que acima de qualquer adjetivo representa o primeiro homem da minha vida, que acompanhou a sua história durante 43 anos.
Recolho as minhas mãos e as percebo trêmulas pela dolorida e atormentada decepção daquilo que não encontrei, enquanto a cruel realidade soa gritante aos meus ouvidos, repetindo de uma forma assustadora, o deprimente balbuciar da tua voz.
Os quilômetros que nos separam acabam enevoando a nítida percepção do estado em que te encontras, mas os relatos da Sofia, ora serenamente contidos, ora mergulhados no desabafo de desespero e lágrimas, têm preenchido o meu peito com uma inconformada tristeza pelos teus sintomas pós-operatórios. Não falo da clipagem do aneurisma cerebral, cuja cirurgia parece ter obtido sucesso. Falo do mal de Parkinson, que se tornou mais agressivo. Falo da falta de capacidade em reconhecer sequer aqueles que te são mais próximos. Falo da incoerência de gestos, e palavras que se arrastam numa pronuncia arrancada com extrema dificuldade. Falo da dor e desconforto que te atormentam sem que consigas descrevê-los. Falo da ausência de lucidez, que te fazia brilhar entre os mortais. Falo do homem que se esvai nesse leito de hospital, e sobre o qual se debruça a imensa sombra de uma pequenina esperança.
Por mais que a razão se muna de ilusórios argumentos, tentando convencer-me de que o teu estado é apenas circunstancial e transitório, a emoção arranca de mim toda e qualquer expectativa positiva, e as lágrimas me invadem o rosto e a alma, numa incontrolada saudade. No entanto, por tudo o que ainda não dissemos um ao outro, preciso acreditar que as nuvens vão se dissipar, e o sol brilhará em sua magna plenitude, trazendo a perspectiva de muitos e muitos dias recuperados. Por isso esta receita, mais do que uma homenagem, sela um compromisso com a determinação de a preparamos juntos brevemente.
Escolhi o bacalhau, por fazer parte de pratos típicos da terra onde nasceste, e por figurarem na lista dos alimentos que mais aprecias, complementei-o com queijo, maçã e castanha de caju.
Separam-se duas postas grossas de bacalhau, previamente colocadas de molho no leite, de um dia para o outro, o qual deve ser trocado 4 vezes. Numa frigideira, regada com um fio de azeite de oliva, fritam-se as postas, dos dois lados, até que dourem, e reservam-se.
Numa panela, também regada com um fio de azeite de oliva, colocam-se picados, uma cebola, dois dentes de alho, dois tomates (sem pele e sem semente), e refoga-se levemente. Acrescentam-se duas maçãs cortadas em cubos e 100g de castanha de caju. Refoga-se por mais alguns minutos. Junta-se 1/2 xícara de vinho branco seco, até que ferva e evapore um pouco, enquanto o seu aroma se impregna nos outros ingredientes. Retira-se a panela do fogo, e mistura-se uma xícara de creme de leite industrializado. Tempera-se com pimenta-do-reino moída, e sal, (se for necessário).
Colocam-se as postas em um recipiente refratário, e rega-se com o creme. Por cima deste, espalham-se pequenos cubos de queijo provolone. Leva-se para gratinar, durante aproximadamente 40 minutos, no forno pré-aquecido.
Retira-se do forno e polvilha-se com cerefolio picado. Acompanha-se com arroz branco.
Depois de prepararmos este prato, iremos degustá-lo entre brincadeiras e confidências... Que os anjos o permitam, pelo quanto te amo!
Até breve!


 
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° Alho
° Azeite
° Bacalhau

° Castanha de Caju
° Cebola
° Cerefolio
° Creme de leite
° Maçã
° Pimenta-do-reino
° Queijo Provolone
° Tomate
° Vinho branco seco

Receitas Com Peixe

O meu pai é mais uma das vitimas do mal de Parkinson, distúrbio que hoje, mais para alguns e um pouco menos para outros, acaba limitando certas funções. Há algumas semanas sofreu uma trombose que lhe tirou 75% da visão de um dos olhos, e cujo risco de ocorrer novamente e afetar alguma outra parte do corpo, ainda existe em alto grau.
Quinta feira, dia 4, ele foi operado por causa de um aneurisma intracraniano, o qual em estado avançado, ameaçava estourar e causar sérios danos cerebrais, os quais poderiam ocasionar retardamento mental e motor. Cirurgicamente tudo parece ter corrido bem, no entanto, desde então, o seu estado de lucidez é assustadoramente deprimente, sem previsões ou demonstrações de alguma melhora, embora os médicos nos tentem acalmar, com perspectivas positivas, mas não seguras.
Peço àqueles que visitarem esta página, independente de credo ou religião, que enviem energia positiva não só a este homem que precisa recuperar seu criativo e sensível estado de lucidez, pois ainda lhe resta muito que aprender e ensinar, assim como a todos aqueles que se encontram em leitos de hospitais, ou enfermos em suas próprias casas..
Obrigada, e que os anjos iluminem seus caminhos!

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