Os
mais práticos e realistas, podem até ter se permitido
ao indignado comentário, de que a sofisticação
desta ceia ultrapassa a capacidade das crianças em valorizar
a essência do paladar que a envolve, mas a percepção
das características dos alimentos, e o efeito dos temperos que
os acompanham, é um dom que se desenvolve e se aprimora, apenas
com a prática. Não tenho a mais remota intenção
em fazer das crianças e adolescentes que compõem a minha
atual família, “Grands Chefs”, mas não abdico
da possibilidade em oferecer-lhes o sublime prazer de experimentar e
explorar cada nuance do paladar, além do mais, a herança
deixada pelo meu marido, na qual não havia tocado, até
definir o propósito de criar este Lar, se destina única
e exclusivamente à qualidade de vida destas crianças,
onde reservei espaço para alguns, mesmo que não constantes,
momentos de requinte e sofisticação, os quais não
sei se terão possibilidades de usufruir quando começarem
a caminhar com suas próprias capacidades.
Por isso comprei bacalhau, sim! Seis postas grossas de bacalhau do Porto.
Tenho certeza que não estarei “dando pérolas aos
porcos”,(como diz certa expressão embutida em preconceitos),
mas sim ensinando aos meus “filhos” outros valores que não
apenas os morais.
De véspera, coloquei o bacalhau de molho, trocando a água
duas vezes, e depois substituindo esta por leite, o qual também
troquei duas vezes.
Cozinhei em água sem sal, dois maços de brócolis,
depois de escolhidos e lavados. Lavei 3 xícaras de amoras.
Numa panela, derreti 4 colheres (de sopa) de manteiga, juntei 1 ½
xícara de farinha de trigo e um cálice de Vinho do Porto,
mexi, e aos poucos, fui acrescentando 1 litro de leite, mexendo sempre,
(para evitar que crie pelotas), até que engrossasse. Acrescentei
1 colher (de sobremesa) de noz-moscada, moída na hora, e uma
pitada de sal, (pouco, porque o prato já tem o sal do bacalhau).
Em dois refratários, untados com um fio de azeite de oliva, montei
camadas alternadas, começando por forrar o fundo com os brócolis,
polvilhar com alho e cebola (bem picados), espalhar algumas amoras,
cobrir com o bacalhau (levemente desfiado), para finalmente regar com
o molho branco.
Cobri os refratários com papel alumínio, e levei-os ao
forno pré-aquecido por aproximadamente meia hora, para depois
retirar o papel alumínio e deixar gratinar por mais 45 minutos.
Esta mistura de sabores, aromas e texturas, com certeza será
apreciada, mais por alguns e menos por outros, mas observar as expressões
das crianças ao saborear este prato, e tentar decifrar os códigos
que se expõem, descarada ou timidamente, é um deleite
para o espírito, e uma recompensa a todo o empenho e carinho
com que me debruço sobre o preparo dos alimentos.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
Este
conto continua em outra receita