Silvana
pode até ser considerada uma moça recatada, apesar de
toda a modernidade que envolve o seu projeto de vida. Nascida e criada
numa cidade pacata do interior, orientada pelas normas conservadoras
que delimitaram a sua educação e a de mais cinco irmãos,
enfrentou com determinação, a relutância dos pais
em concordarem com a decisão de mudar-se sozinha para a capital,
e caminhar com empenho, em direção à meta de uma
faculdade e de um emprego que lhe proporcionasse melhores condições
de vida. Teve apenas um namorado, com o qual manteve um relacionamento
duradouro, mas a cuja paixão acabou renunciando em razão
da conquista de seus ideais.
Ali, na pequena cozinha do apartamento que dividia com mais duas ex-colegas
de faculdade, contagiada pelo calor que se impregnava no ar em pleno
mês de Janeiro, embrenha-se no clima do ritual a que sempre se
dispõe com tanto prazer, e prepara a sutil refeição,
que a aliviará da fome contida durante um dia de trabalho.
Separa 4 xícaras de arroz branco que havia sobrado da véspera.
Numa panela, em duas colheres (de sopa) de azeite de oliva, refoga uma
xícara de bacon cortado em cubinhos. Acrescenta uma xícara
de ervilhas em conserva, meia xícara de azeitonas pretas picadas,
meia xícara de cenoura, também cortada em cubinhos, e
uma colher (de chá) de gengibre ralado. Mexe por dois minutos,
e junta ao arroz frio.
Passa a mão pelo rosto e esfrega os olhos, como se tentasse acordar
daquilo que não sabe como classificar, mas que parece não
se encaixar na sua realidade, e revê, entre envergonhada e surpresa,
o seu comportamento dessa tarde.
Com o horário de verão, a hora de pique, apesar de todo
aquele tumulto que enquadrava os rostos cansados de corpos que se atropelavam
em movimentos apressados, tinha um certo ar de esperança, porque
o dia ainda estava claro, as pessoas voltavam para casa, e o sol continuava
presente no céu azul, afirmando que a noite ainda ia demorar
para chegar.
Indignada com a proposta que acabara de receber, pois esta se chocava
com os princípios em que se baseava a sua conduta, não
conseguia evitar uma nuance de ego massageado ao lembrar que o seu chefe,
um senhor aparentemente respeitável e chefe de família,
lhe oferecera um carro, em troca de alguns favores, é claro.
Recusara a oferta com um certo ar de ofensa causada pela inquieta perplexibilidade
de ele ter chegado a pensar na hipótese de um acordo.
As pessoas empurravam-se sem o mínimo constrangimento, para alcançar
em primeiro lugar os degraus do ônibus que acabara de parar no
ponto. Apesar de já estar acostumada a esta rotina desagradável,
parecia que cada dia experimentava uma sensação nova de
desconforto. Pressionada entre corpos suados e olhares examinadores,
Silvana procurava lugares agradáveis para descansar os seus pensamentos,
e fugia daquele turbilhão de vozes, motores e buzinas, refugiando-se
no entardecer sereno que envolvia a cidadezinha onde nascera, mas as
mentes da multidão pareciam invadir a sua, e ela acabava tendo
que voltar ao lugar e tempo presentes.
Cruzou com olhar insistente de um rapaz, que sorriu para ela numa expressão
desafiadora, mostrando uma fileira de dentes incrivelmente brancos.
Os seus olhos eram de uma escuridão profunda, e atrevidos, na
maneira informal como invadiam a sua privacidade. Assustada, ou encabulada
por não poder compartilhar da dessa espontaneidade, desviou a
sua atenção para os carros e pessoas que transitavam do
lado de fora. Apesar de se encontrarem praticamente em extremidades
opostas, ela sentia o olhar daquele rapaz controlando todos os seus
gestos, e a sua respiração queimando-lhe a pele.
Percebeu que, sem cerimônia, abria caminho por entre os outros
passageiros até que sentiu um volume quente pressionando a sua
saia. Afastou-se um pouco, mas quase que imediatamente a distância
foi anulada, e o seu corpo pressionado com mais firmeza. Virou a cabeça,
no intuito imperativo de reclamar, mas o desejo não menos imperativo
que vinha da sua expressão desarmou-a, e sucumbiu à leviana
vontade de se tornar cúmplice desse prazer. O braço levantado
tocava-lhe o cabelo. Ela, que de vitima tornara-se passivamente participante,
ansiava para que seus dedos o invadissem, acariciando o seu pescoço,
seu colo...Perplexa consigo mesma, estranhando as atitudes que a conduziam
ao desapego total da decência, ela sabia que aquele estava muito
longe de ser o tipo de homem por quem se deixaria envolver, mas algo
na compulsividade de seus movimentos e na ausência de outros,
atraía-a sedutora e eroticamente para o calor do seu corpo. Tudo
em Silvana parecia ter se transformado em tremores de ansiedade, entre
assustada com o seu próprio comportamento e com a impotência
de fazê-lo respeitar suas convicções de integridade
física, e envolvida pela sedução do proibido, do
escondido, do errado que pode ser saboreado sem laços de compromisso
com o passado ou o futuro. Os gestos e a postura, até certo ponto
tolhidos pelas circunstâncias, deixavam um espaço em branco,
que a imaginação se encarregava de ilustrar, e então
o prazer parecia muito maior, sem limites.
O rapaz reclama agressivamente de um velho que, como ele, mas com preferências
opostas, tentava tirar proveito do aperto em que todos se encontravam,
e foi então que pôde ouvir o som da sua voz, uma mistura
de homem e menino, que derrubava cada vez mais os seus conceitos, de
repente tão fragilizados.
O ônibus brecou. O desequilibro geral deixou-a quase de frente
para ele. Inalava um odor de suor, que em outras circunstâncias
teria classificado como extremamente desagradável, mas que naquele
momento a atraía, como um convite a uma viagem por caminhos desconhecidos
e evitados.
Em sobressalto, como que acordada brutalmente de um sonho, percebe o
ônibus parado no ponto em que deveria descer. Sem tempo para se
recompor das sensações em que mergulhara, escorrega por
entre os outros passageiros e salta para a calçada. Só
então nota o zíper da bolsa aberto, e a ausência
da sua carteira. Aflita e com raiva, olha para o ônibus já
em movimento, tentando descobrir no rosto das pessoas algo que as denuncie,
mas desiste, culpando-se por ter estado desatenta ao deixar-se envolver
por momentos de volúpia, os quais agora tenta apagar da memória,
mas resiste implacável, por todo o corpo, o olhar, o toque, o
cheiro daquele rapaz que arrancara dela toda a decência de mulher,
para transformá-la em fêmea no cio.
Silvana acrescenta ao arroz uma xícara de abacaxi e meia xícara
de maçã, picados. Mistura com delicadeza e polvilha com
meia xícara de salsa picada e pimenta-do-reino moída.
Saboreia este arroz frio, próprio para dias quentes, enquanto
divaga sobre a constatação de que o ser humano é
cheio de surpresas, em atitudes que com certeza não o definem,
mas que eventualmente ajudam a escrever sua história.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)