A
curiosa ansiedade, manifestada pelo eufórico murmurinho que se
instalara na sala principal, tinha sua mobilidade marcada pelo trajeto
que se alternava entre a porta do quintal e a da cozinha, na expectativa,
respectivamente, da chegada do Papai Noel, e da possibilidade de saciar
o apetite, que aumentava em decorrência do aroma que se infiltrava
por toda a casa.
Moisés era o mais constante na manifestação da
sua ansiosa curiosidade. Seus olhos, tão negros quanto a própria
pele, acompanhavam fielmente o sorriso maroto que se desenhava no sorriso
entreaberto. Não tão sozinho no mundo como a maioria das
outras crianças, recebia a visita da mãe todos os fins
de semana, e aconchegava-se no abraço maternal com o silencioso
respeito pela imposição das circunstâncias, parecendo
entender em seus ingênuos cinco anos, que aquela situação
seria apenas provisória.
Lavei seis xícaras de arroz, e refoguei-o em meia xícara
de azeite de oliva, com uma cebola e 4 dentes de alho, moídos.
Acrescentei, 2 xícaras de uva passa (branca, sem semente), e
duas xícaras de nozes picadas. Refoguei por mais três minutos,
enquanto mexia, e juntei 10 xícaras de água fria. Deixei
cozinhando em fogo médio, na panela destampada.
Nádia, mãe de Moisés, desde criança era
assediada sexualmente pelo padrasto, com a conivência da própria
mãe, e na idade que apenas tangencia a puberdade, fugira de casa,
achando na prostituição um meio de sobrevivência.
À mercê da escassa informação, e do restrito
acesso a meios de prevenção, acabou engravidando. Tomada
pela consciência da nova responsabilidade que a maternidade lhe
atribuía, mudou de vida, e arrumou emprego numa casa de família,
onde pernoita, por isso, optou por deixar seu filho aos cuidados do
“Lar da Vida Pela Vida”, sabendo que, assim que a situação
lhe permitir, poderá resgatar com seu filho, o tempo que apenas
está sendo adiado.
Moisés é uma criança que mantém uma relação
extremamente harmônica com a vida, e em cuja expressão
impera a ternura e alegria. Cobra carinho com carinho, e atenção,
expondo toda a sua inteligência e bom humor. Reage com resignação
quando é contrariado.
Quando a água do arroz se evapora quase que totalmente, tampo
a panela, e deixo que esta seque em fogo baixo.
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)
Este
conto continua em outra receita