Paula,
minha inesquecível amiga,
Ao começar esta carta, formulo dois desejos cuja realização
se torna imprescindível ao intuito da mesma. Desejo, com toda
a nostalgia que o tempo cobriu de pó durante tantos anos, que
você ainda se lembre de mim e dos momentos, ora fúteis,
ora enriquecidos por experiências relevantes, que compuseram os
dias da adolescência que compartilhamos. Desejo antes disso, com
menos emoção e mais praticidade, mas com igual fervor,
que o endereço que encontrei por acaso no remetente de uma de
suas cartas, entre os amarelados papeis, de um baú onde guardo
os instantes de minha vida que foram registrados em palavras, me leve
ao teu encontro, e nos possibilite reavivar a chama de uma amizade que
apenas estava adormecida pela distância, mas que a lealdade do
coração não permitiu que se apagasse.
Tanto tempo se passou!... De meninas, envoltas na ânsia pueril
da descoberta de novas emoções, e de nós mesmas,
nos transformamos em mulheres um tanto ou nem tanto amadurecidas, e
talvez ainda na busca da nossa essência e de nossos sonhos. Nossas
filhas são agora duas mulheres, e talvez nem saibam da nossa
história, mas com certeza ainda estamos em tempo para falar-lhes
de como nossos caminhos se cruzaram, e da estrada que, durante algum
tempo trilhamos juntas, na qual uma forte amizade sempre se fez presente.
Por mais que a minha imaginação se prenda a referências
do passado, para que eu possa vislumbrar, mesmo que tenuamente, quem
você é ou como você está agora, os vinte e
dois anos que se passaram, desvinculam qualquer dado que tenha permanecido
na memória.
Eu tive mais três filhos, (esses são os que o meu útero
desenvolveu, porque o meu coração adotou tantos outros,
que já perdi a conta), alguns maridos, muitos amigos, e um grande
amor, que hoje é meu cúmplice e companheiro. Fui vitima
de um acidente de carro, que me fez parar de dançar e me limita
algumas possibilidades de deslocamento, mas que também me ajudou
a enxergar novos valores, e como resultado da equação,
este fato, que a principio parecia ter me limitado, se transformou numa
parcela a somar ao que a vida tem me oferecido de bom, pois agradeço
aos anjos tudo o que plantaram para mim e em mim, após o acidente.
Encontrei alguns, (ou até muitos) obstáculos, alguns transpus
com paciência e perseverança, de outros desviei circunstancialmente,
esperando o amadurecimento necessário para enfrentá-los.
Encaro tudo o que conquistei ou perdi, não como prêmios
ou castigos, mas sim como uma conseqüência dos meus atos,
embora me considere privilegiada pelas flores que pude ver florescer,
e colher.
Se você conserva intacto, ou em pedaços que podem ser colados,
o período que preenchemos juntas com risos e lágrimas,
intercalado pela serenidade e euforia, provavelmente irá se lembrar
dos momentos na cozinha, onde fazíamos da busca ao paladar um
ritual de cumplicidade. Por isso, para te levar a um passeio por um
desses momentos, estou te enviando uma das nossas receitas favoritas,
receita que me foi passada pela minha mãe, que recebeu da sua,
e de não sei quantas mães antes desta.
Coloque 5 xícaras de água para ferver, com 11/2 colher
(de sopa) de manteiga, uma pitada de sal, e casca de um limão
(a casca deve ser retirada sem machucar o limão,para que depois
o leite não coalhe). Junte 8 rolinhos de macarrão cabelo
de anjo, e deixe ferver por 3 minutos. Acrescente 8 colheres (de sopa)
de açúcar, e 3 xícaras de leite quente. Deixe cozinhar
até que fique um creme. Separe as gemas de 4 ovos, bata-as com
um pouco do caldo, para que estas não cozinhem, e junte-as ao
creme, lentamente e mexendo sempre. Coloque o creme em pratos ou travessas
e decore, polvilhando com canela em pó. (Você se lembra
de que costumávamos escrever o nome daquele que era objeto da
paixão de cada uma, no momento?)
Desejo, (aqui estou eu formulando o meu terceiro desejo, além
de outros ocultos nas entrelinhas), que este legado de tantas gerações,
traga envolvida pela sabor, a recordação daquilo que desfrutamos
com todo o encanto da adolescência.
Ainda tenho muito que aprender, muito que retribuir, muito que concretizar,
só peço a esses anjos tão generosos que iluminem
meus sentimentos, meus pensamentos, minhas palavras e meus atos, para
que eles me façam catalisadora de coisas boas, em retribuição
ao que tenho recebido.
No remetente desta carta, mais do que um simples endereço para
que você possa respondê-la, vai um convite a reatar velhos
tempos, até onde a distância nos permite, e a semente da
esperança de que o destino nos presenteie com o reencontro.
Muitos beijos, uma imensa saudade, e o mais eterno obrigada por você
ter estado lá, naquele instante da minha vida,
Sua irmã,
Tina
(É
permitida a reprodução deste texto, desde que seja citada
sua origem e autoria: www.sensibilidadeesabor.com.br; Cris da Silva.)